A economia do biscate

giphy.gifViva a Uber, abaixo os táxis. Depois da triste arruaça de um numeroso grupo de taxistas na rotunda do aeroporto de Lisboa, os táxis e os seus condutores estão decididamente fora de moda. E os consumidores orientam-se para o novo modelo de negócio da Uber e empresas similares, por três razões principais que Francisco Louçã enumera: estamos irritados com os táxis, o serviço da Uber é mais barato e mais moderno.

Estas três razões têm fundamentos, baseiam-se em experiências, fazem parte da vida. E, no entanto, parecem-me insensatas e imprevidentes. A do preço é a mais evidente: com menos custos legalmente determinados, uma empresa, que finge que organiza serviços pessoais e não transporte colectivo, pode começar por preços mais baratos e até aguentar um prejuízo importante, como a Uber mundial faz. Mas qualquer multinacional existe para procurar criar um monopólio, esta não é excepção e é por isso que os preços vão ser sempre um problema. Se pensa que a Uber, uma empresa que vale 40 mil milhões de dólares, não está nisto para ganhar dinheiro mas para o ajudar bondosamente, desengane-se. Se ela vier a triunfar, os clientes vão sentir.

Já a ideia da modernidade é mais insidiosa. Desregulamentar, cortar custos, abolir garantias, fugir aos impostos, expatriar lucros, que é basicamente o que a Uber faz, nada tem de moderno. Se concebermos a modernidade como um longo caminho na conquista de direitos humanos universais, no primado da lei e da justiça sobre os interesses dos poderosos e das corporações e em defesa dos mais vulneráveis, numa política de redistribuição de rendimentos e de trabalho com direitos, então deveremos denunciar o profundo reaccionarismo e a falsa modernidade destas empresas ditas da nova economia:

Há na modernidade empreendimentos cooperativos, mesmo que alguns com interesses económicos. Empreendimento cooperativo é a Wikipedia, não é a Uber. O que a Uber faz, ou outras empresas como ela, é criar um modelo de negócio em que o trabalhador não faz trabalho, faz um biscate, não tem salário, tem comissões, não tem contrato, tem um link.

Depois de ter convertido em trabalho precário muitos dos empregos estáveis e com direitos que caracterizaram o modelo económico e social das democracias ocidentais na segunda metade do século XX e que garantiram três décadas de progresso económico e deram solidez às classes médias, o neoliberalismo triunfante sente-se agora preparado para dar um passo em frente: Louçã, diz que vem aí, se o deixarmos, o biscatariado.

Já não se trata agora de pôr licenciados a ganhar o salário mínimo ou a falsos recibos verdes em empregos precários: é mesmo a ausência de emprego, de contrato, de garantias de qualquer espécie:

Nem contrato estável nem contrato precário, só fica uma comissão de-vez-em-quandária e um patrão inacessível e escondido num computador perto de si. Não há relação legal, ninguém é responsável, a lei da selva é a única lei. Há quem diga que isso é melhor do que nada, o que é precisamente a forma de justificar que seja quase nada. O jogo está mesmo a mudar.

Por isso, caro cliente do táxi que passa para a Uber porque é mais barato e mais moderno: se de repente a Uber lhe oferece flores, desconfie de que não gostam nada de si. O que este modelo quer para a sua filha é uma vida sem destino, esperando por detrás de um ecrã as ordens de um Big Brother que lhe cobra uma comissão e que lhe diz: faz-te à vida, luta na rua, apanha a rede e terás cliente, a sorte vai fazer o teu dia, se fizer.

 

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