A eterna indisciplina

tumblr_nzfp4jtXzh1v1mjoco1_500.gifPara metade dos professores, a indisciplina na sala de aula é a principal dificuldade para conseguir fazer o seu trabalho. À frente de questões como a extensão dos programas curriculares (o maior problema para 30,3%), as mudanças nas metas curriculares (9,3%) ou o trabalho com os colegas (4,5%). Estas são algumas das conclusões do inquérito “As preocupações e as motivações dos professores”, da Fundação Manuel Leão, que será apresentado amanhã, em Vila Nova de Gaia.

Os professores queixaram-se de ser preciso estar constantemente a mandar calar um aluno, evitar que faça observações inapropriadas ou impedir conversas. A chamada “pequena indisciplina”, que é também a mais perturbadora da ação dos professores. Só no 1.º ciclo os docentes indicaram o tamanho dos programas como o maior problema, à frente da indisciplina. Enquanto os professores do ensino profissional (63,9%) e das escolas profissionais (65,4%) são os que mais se queixam da indisciplina.

À frente da equipa que realizou este estudo, o inevitável Joaquim Azevedo já tratou de identificar os culpados do costume: os professores que “não ouvem os alunos” e que insistem naquilo a que chama as “aulas de passar”, nas quais os alunos estariam – estarão? – 90 minutos a escrever apontamentos ditados pelo professor.

Claro que fica sempre bem dizer que a indisciplina é uma manifestação de problemas sociais e escolares que existem a montante. Mas essa é uma constatação vazia de sentido quando não vemos as pessoas que dizem e escrevem estas coisas minimamente comprometidas com as mudanças sociais, económicas e políticas que poderiam transformar, para melhor, o mundo em que vivemos.

Ao conservadorismo, conformismo e por vezes oportunismo que marcam a carreira de muitos académicos do regime, contrapõe-se o radicalismo das propostas e o dedo acusador das críticas que fazem aos professores, aqueles que afinal de contas dão o corpo ao manifesto e tentam cumprir as exigências contraditórias que recaem sobre as escolas.

Da indisciplina no quotidiano escolar, que só muito raramente assume os extremos de violência verbal ou física mediatizados pelos media e as redes sociais, o que sobressai é sobretudo a pequena indisciplina: o aluno que persiste em estar à conversa durante a aula, o que se distrai a espreitar o telemóvel ou o que tem intervenções desapropriadas. Interromper a aula constantemente para mandar calar um, corrigir outro ou mandar um terceiro voltar-se para a frente tem o efeito de tornar mais desgastante e menos produtivo o trabalho de alunos e professores.

Para combater a indisciplina há vários remédios, sendo que de um dos mais eficazes os azevedos costumam fugir a sete pés: turmas mais pequenas formam grupos de alunos mais coesos que o professor consegue controlar melhor, quer ajustando o ritmo da aula aos alunos que tem à sua frente, quer dando atenção aos pequenos sinais que os alunos mostram quando estão desmotivados, desatentos ou com dificuldade em perceber uma matéria, antes que essas situações descambem em indisciplina.

Programas menos extensos e prescritivos também facilitam diferenciação e a diversificação de pedagogias e metodologias mais activas de aprendizagem. Mas nos últimos anos os correligionários políticos do doutor Azevedo impuseram programas ainda mais extensos, balizando o seu cumprimento com metas de aprendizagem e exames de final de ciclo.

Continuamos assim com as turmas grandes, os programas extensos e uma escola à qual se corta nos recursos e nos meios ao mesmo tempo que se exige que compense, em relação aos seus alunos, as insuficiências da família, da sociedade e dos outros serviços públicos. Perante isto resta apenas, a cada professor, recorrer à sua experiência pedagógica para lidar o melhor possível com o fenómeno da indisciplina. E aqui todas as dicas darão jeito, pelo que finalizo com a sugestão de Paulo Guinote:

Prefiro lidar com a indisciplina com humor. Raramente mando alguém para a rua. Mais facilmente expulsava um aluno há 20 anos do que hoje. Sei que eles ficam mais satisfeitos se saírem da sala.

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2 thoughts on “A eterna indisciplina

  1. Dava jeito ler os artigos do Pedagopgo e Psicólogo Eduardo Sá.

    Como professora,. prefiro mil vezes um aluno indisciplinado (atenção – indisciplinado não significa mal educado; significa para mim um aluno inquieto, falador,que perturba os outros e não está atento); prefiro este tipo de alunos dizia eu, do que os desinteressados, amorfos e demasiado calados.

    É muito importante distinguir indisciplina de falta de educação, se bem que, por vezes, parecem ser a mesma coisa e não são; outras vezes, 0os alunos são indisciplinados e mal educados também.

    Recordo que cada turma é um micro-organismo; uma micro-sociedade.
    Quem teve no seu curso de Professor Sociologia da Educação, sabe que cada turma tem um líder – SEMPRE: Controla-se o líder, está a turma controlada. Isto, eu garanto, com 30 anos de ensino. É preciso ter um instinto muito apurado para se perceber quem é o líder, que pode ter um ou dois instigadores. Identificá-los rapidamente é muito importante para depois se ter o controlo do resto da turma. E funciona. Tenho a 3 dezenas de anos de vida profissional que o comprovam.

    O “mito da indisciplina” vai desaparecer se os Professores forem para esta profissão por vocação. Tal como nem todos somos médicos, pedreiros , advogados ou enfermeiros, porque simplesmente não temos vocação para isso, nem todos podemos ser Professores, porque podemos também não ser vocacionados para a profissão. Este é outo ponto a ter em conta quando se fala de “alunos indisciplinados”. Um bom professor controla-os, acreditem!

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    • A questão da liderança da turma remete mais, a meu ver, para a indisciplina mais grave, premeditada e orquestrada que não é, felizmente, a mais comum na maioria das escolas portuguesas, embora seja um sério problema nalgumas escolas e em certos tipos de turmas. O post aborda uma indisciplina ligeira, difusa, a “pequena indisciplina” como lhe chamam os autores do estudo, que é perturbadora das aulas, prejudica as aprendizagens mas não tem necessariamente um líder.

      Quanto às três décadas de experiência profissional, que também tenho, a única coisa que elas me comprovaram, até agora, é que não há uma solução mágica ou receita única para os problemas escolares, sejam os da indisciplina ou as dificuldades de aprendizagem. Há coisas que funcionam quase sempre, mas às vezes falham, há estratégias que resultam bem com a turma A mas não na turma B e até há turmas e alunos, cada vez mais raros infelizmente, com os quais qualquer estratégia tende a funcionar bem.

      Já a questão do professor por vocação parece-me um caminho algo dúbio, que no fundo leva ao mesmo caminho sem saída que é o de culpabilizar os professores pela indisciplina que não conseguem evitar: isto é cómodo, porque significa que não precisamos de fazer nada em relação às famílias desestruturadas ou carenciadas, às crianças negligenciadas ou maltratadas, a situações de bullying, aos programas e currículos mal feitos, à falta de condições de muitas escolas, às turmas de 30 alunos e por aí fora: um professor com vocação controla o líder da turma e resolve assim estes problemas todos. E se não consegue, é um mau professor que merece por isso o mal que lhe cai em cima. Não me parece.

      Ainda sobre a vocação dos professores, veja-se este post muito oportuno do Luís Braga:
      http://www.comregras.com/professores-vocacao-ou-profissionalismo-salario-ou-palavras-bonitas/

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