As escolas públicas rejeitam alunos?

maus-alunos.gifJoaquim Azevedo denuncia, em artigo de opinião no Público, uma realidade com que se tem deparado no Porto: há escolas públicas que rejeitam determinados alunos – geralmente aqueles que têm um historial de retenções ou problemas disciplinares.

O problema é muito grave e já o seria se envolvesse um só aluno da cidade. Mas, desgraçadamente, envolve muitos. Depois, é grave porque está a criar dois tipos de escolas públicas. De um lado, as escolas públicas que rejeitam este tipo de alunos, chamamos-lhes as escolas públicas limpas, do outro, as escolas que os aceitam porque, situadas em “bairros sociais problemáticos” (ex. Cerco, Viso, Leonardo Coimbra), estão a ficar sem alunos, na sequência da debandada gradual da “classe média”, que apreende bem este movimento e retira os seus filhos para escolas mais limpas, que todos sabem quais são, mesmo ultrapassando disposições administrativas. Assim, este segundo tipo de escolas da cidade, as escolas públicas sujas, que a designação TEIP só ajuda a denegrir, concentram cada vez mais alunos com percursos escolares “irregulares”, como os que acima descrevo.

Além disto, há uma rejeição de alunos, mais sistemática, por parte das escolas secundárias, com base nas classificações e outros motivos burocráticos que se entende invocar apenas perante alguns alunos, para afastar os “indesejados”, pois podem estragar o perfil da escola e das turmas.

Toda a gente sabe e vê isto, mas olha para o lado. A cidade não actua com conhecimento, estratégia e determinação, apesar de até se proclamar “cidade educadora”!

Não é só no Porto que isto acontece. À partida pode suceder em qualquer parte do país onde existam escolas com procura superior à oferta, ou seja, que tenham mais candidatos à frequência do que aqueles que cabem nas turmas que a escola tem possibilidade de constituir. A partir daqui, são os próprios critérios legais de selecção, como a residência nas proximidades da escola ou a existência de irmãos a frequentá-la que fazem com que as escolas situadas em bairros de classe média-alta tenham naturalmente um público escolar bastante distinto do das situadas nas proximidades de bairros sociais ou em zonas urbanas degradadas.

Mas Joaquim Azevedo prefere discorrer longamente, em tom lamurioso, sobre os malefícios destas escolas segregadoras para os seus pobrezinhos – leia-se, os meninos problemáticos que acompanha no seu trabalho académico – em vez de apontar as causas desta situação. O que seria incómodo para um colaboracionista de longa data com as políticas educativas que têm promovido entre nós a segregação escolar e nalguns casos a construção de verdadeiros guetos educativos.

Diga-nos Joaquim Azevedo para que servem os rankings de escolas que os seus correligionários políticos do PSD sempre defenderam, senão para as famílias escolherem, precisamente, as escolas mais bem posicionadas?

Explique-nos como podem as escolas, pressionadas para melhorar rapidamente os seus resultados nos rankings, fazê-lo, sem mais meios nem autonomia, sem ser apostando na captação dos melhores alunos.

E não esqueça a política de requalificações promovida no âmbito da Parque Escolar e destinada precisamente a criar um pequeno número de escolas secundárias de referência, capazes de ombrear, em instalações, qualidade de ensino e resultados académicos, com os melhores colégios privados.

Finalmente, neste tipo de discurso há muitas vezes uma componente de hipocrisia quase sempre presente quando queremos a integração dos pobres, dos problemáticos, dos marginais e excluídos, mas que ela se faça, na prática, com os filhos dos outros. A escola pública integradora que defendem é a mesma que tantas vezes consideram indigna dos seus filhos, colocados em colégios selectivos ou escolas mui católicas com propinas a condizer.

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