Sermão de Lurdes Rodrigues ao CDS

Algumas destas alterações a que assistimos nestes meses por este Governo resultam das decisões tomadas pelo Governo imediatamente anterior não terem sido minimamente consensualizadas. Elas são tomadas e percebidas como sendo em rutura. Quanto há uma mudança de política isso é percebido como uma oportunidade para voltar a repor as coisas.

mlurdesrodrigues.JPGDepois de se vencer uma certa e por vezes incontrolável adversão por personagens como a socióloga escolhida por Sócrates para dirigir a Educação e liderar a maior ofensiva governamental de sempre contra os professores, a leitura da entrevista ao Jornal de Negócios acaba por ter o seu interesse.

Descontando a tentativa falhada de justificar o injustificável – o desastre financeiro do programa da Parque Escolar – nota-se que Lurdes Rodrigues até faz uma análise correcta quando desmonta a acusação de “querer mudar tudo” e de “destruir o trabalho feito” que a direita tem feito ao actual governo.

No caso da Educação, a ruptura com políticas anteriores foi mais evidente com Nuno Crato que, escudado nas suas posições pessoais, nos interesses que gravitavam em torno do governo e de elementos da sua equipa e na força política da maioria absoluta, impôs medidas como os exames no 4º e 6º ano que nunca mereceram discussão, muito menos consenso, entre os intervenientes e os interessados nas matérias educativas. A aparente facilidade com que essa e outras decisões estão agora a ser revertidas mostra bem o seu carácter superficial, à medida que se retoma uma linha de acção mais consensual e onde são evidentes as ligações – às vezes até excessivas, deixando uma sensação amarga de esgotamento das ideias e dejá vu – às políticas de governos anteriores.

O que o discurso de MLR tende a omitir é que entre o seu mandato e o da sua sucessora, o de Nuno Crato e agora o de Tiago Rodrigues, são bem mais as continuidades do que as mudanças. Concentração da rede escolar, gestão unipessoal, centralismo burocrático, domesticação e proletarização da classe docente, são apenas alguns exemplos da existência de um claro consenso, ao nível dos fins a alcançar, em relação à educação, às escolas e aos professores. E este consenso tomou forma, ao nível da concretização, precisamente nos tempos em MLR governou a Educação. Pois, sejamos claros, apesar de tentativas anteriores, só com Lurdes Rodrigues é que à oportunidade e à vontade se juntaram uma rara determinação e tenacidade, sempre apoiadas, ao mais alto nível, por todo o governo socratino e até, em surdina, por um PSD com dificuldade em disfarçar o entusiasmo com o rumo da política educativa que estava a ser seguido.

Faz assim algum sentido este apelo aos consensos à direita, por parte de uma apoiante do governo apoiado politicamente à esquerda do PS. MLR sabe que as rupturas com o cratismo se ficam pela correcção de alguns erros e excessos – o exagero de exames, a BCE disfuncional, a PACC anedótica, a falta de um programa eficaz de educação de adultos, a má gestão de recursos evidente na proliferação de contratos de associação. No fundamental e estruturante, não haverá grandes desvios em direcção a uma política educativa verdadeiramente de esquerda: podem ficar descansados os banqueiros e os investidores, as empresas e os advogados do regime, a direita dos interesses, enfim, em todo o seu esplendor – o desinvestimento e o subfinanciamento da Educação continuarão a facilitar o cumprimento de outros compromissos e a satisfação prioritária de outro tipo de expectativas.

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