Quem se lembra de Aylan Kurdi?

Fez ontem um ano que o corpo do pequeno Aylan deu à costa numa praia da Turquia. A imagem a um tempo comovente e revoltante da criança morta, e o mediatismo que gerou, pareceram iluminar a consciência europeia acerca do drama dos refugiados e da necessidade de lhe pôr cobro, construindo uma resposta à altura dos pergaminhos e das responsabilidades de uma Europa sempre pronta a invocar os seus valores humanistas.

Contudo, passado um ano sobre essa tragédia, e muitas outras que se lhe seguiram, a única coisa que se pode dizer é que o problema não só não se resolveu como se agravou: as guerras, conflitos e violências no Médio Oriente continuam sem fim à vista, o tráfico de pessoas continua a ser uma actividade lucrativa no Mediterrâneo e na maior parte dos países europeus prefere-se cavalgar a onda populista, que vê em cada refugiado um terrorista, para construir muros e fechar fronteiras em vez de receber e integrar os que fogem da guerra, da fome e da miséria. E paga-se à Turquia seis mil milhões de euros para acolher os refugiados que a Europa não quer receber.

Só este ano, pelo menos 3100 pessoas morreram no mar Mediterrâneo ao tentar chegar à Europa. A matemática da mortalidade que envolve os migrantes é feita pela Organização das Nações Unidas (ONU).

Aylan Kurdi não pertence a essa lista. Figura na de 2015. A fotografia do pequeno de três anos foi mural de muitos perfis na rede social Facebook, primeira página nos jornais de todo o mundo e tema de debates televisivos em horas a fio. E depois dele?

Segundo dados revelados pelo jornal “El Mundo”, passaram 365 dias e morreram 423 crianças afogadas no mar às portas do sonho europeu.

Duas mil crianças morreram, em terra, desde janeiro, em bombardeamentos na guerra da Síria, de acordo com o Observatório Sírio dos Direitos Humanos. Omran sobreviveu. A foto do menino sírio coberto de pó e de sangue sentado numa ambulância após um bombardeamento voltou a agitar as redes sociais, mas já caiu no esquecimento.

Apesar disto tudo, vão-se sucedendo as iniciativas hipócritas para assinalar a triste efeméride da morte de Aylan. Foi o que sucedeu ontem à noite em Espanha, quando a fachada do Congresso se iluminou de verde em homenagem à criança naufragada.

congresso-espanha.jpg

Como certeiramente se comentava no Twitter, refugiados não acolhemos, mas luzinhas coloridas, todas as que forem precisas.

 

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