O exame e a angústia do classificador

exame_portÉ de presumir que alunos e encarregados de educação possam confiar nos classificadores de exames, quantas vezes elementos decisivos para as provas de acesso dos primeiros e determinantes na sua vida académica e profissional. Mas nunca como agora perdi a confiança nos meus próprios préstimos, enquanto classificador, perguntando-me por que erros grosseiros de avaliação terei prejudicado sucessivas gerações de alunos. Afirmo-o sem pudor e no rescaldo dos resultados das reapreciações de exames a que, lamentavelmente, tantos alunos recorrem, vulgarizando o excepcional pedido. O serviço de exames perdeu alguma impunidade de que gozaria. Perante a negligência escandalosa que, também na qualidade de encarregado de educação, testemunhei no trabalho de classificação de alguns professores, apenas me resta duvidar da própria prática.

O nosso colega António Jacinto Pascoal faz no Público uma reflexão profunda e algo rebuscada sobre o trabalho ingrato, exigente e muitas vezes angustiante dos professores classificadores de provas de exame.

António Pascoal dá o exemplo do Português, a sua disciplina, para reconhecer que, por muito que se uniformizem e imponham critérios, nunca se consegue chegar à situação ideal que seria todos os professores darem a mesma nota a uma mesma resposta. E enfatiza o facto de serem frequentes os erros dos classificadores, o que tem como consequência o elevado número de recursos que todos os anos são feitos e que obrigam à reapreciação das provas.

Percebo a angústia do avaliador, que também assume a sua condição de pai e encarregado de educação e que se revolta contra os prejuízos causados aos alunos pelos exames mal classificados. Mas acho que há pelo menos dois pontos importantes que o professor não considera.

Em primeiro lugar, parte de uma visão algo preconceituosa, ao considerar que o colega que erra na classificação de uma resposta o faz por incompetência ou negligência. Ou então, porque está imbuído de um espírito de professor à moda antiga, austero e forreta nas notas. Ora eu acho que tanto se pode ser incompetente desvalorizando o trabalho do aluno e dando-lhe uma nota inferior à merecida, como, ao contrário, vendo na resposta aquilo que lá não está e atribuindo uma classificação acima do que seria devido. E, paradoxalmente, parece-me mais grave, em contexto de exame, esta segunda situação: perante uma nota inferior, qualquer aluno insatisfeito recorre da nota, enquanto de um resultado claramente inflacionado ninguém irá obviamente reclamar.

No actual sistema competitivo de acesso ao ensino superior e de disputa das vagas sempre escassas nos cursos mais pretendidos, tanto se prejudica um aluno dando-lhe uma nota inferior ao que o seu trabalho vale, como atribuindo notas imerecidas aos colegas que assim lhe passam à frente.

Em segundo lugar, parece-me que persistimos em atribuir aos exames virtudes e qualidades indevidas, esperando deles coisas que nunca nos poderão dar. O sistema que pretende avaliar o que o aluno sabe e de que é capaz, numa disciplina que estudou durante dois ou três anos, através de uma prova escrita de duas horas, elaborada e avaliada por professores que não conhecem os alunos, tem óbvias limitações. Avalia não o aluno no seu todo, mas o que ele é capaz de fazer naquele contexto, artificial, da sala de exame. Avalia as subjectividades e discrepâncias com que os professores analisam e classificam as provas, o que é especialmente notório nas línguas e nas humanidades. E a uma escala macro avalia também as flutuações de critérios das equipas técnicas e políticas que implementam e elaboram as provas, aferidas pela evolução das médias de resultados obtidos ano após ano.

Um exame é apenas, e nada mais do que isso, o menos mau dos sistemas de avaliação, naquelas situações em que necessitamos de uma avaliação externa aos alunos e não sabemos ou não queremos fazer melhor.

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