Servir os clientes, ou ir roubar para a estrada?

No domingo, a principal autoestrada do país esteve várias horas cortada na zona de Albergaria devido a um incêndio. No meio do calor e do desespero, um casal começou a distribuir garrafas de água.

O casal encontrava-se fora da A1, numa zona de floresta, separada da estrada por uma rede. Num domingo de muito calor, com as temperaturas perto de 40 graus e com um incêndio próximo, a chegada de água fresca parecia uma miragem.

O casal distribuiu dezenas de garrafas e garrafões de água fresca, mais de mil litros de água comprados por conta própria de acordo com o Jornal de Notícias, aliviando o desespero de quem esperava há horas parado no trânsito. O momento foi registado e partilhado no Facebook, onde se multiplicam os elogios à atitude do casal.

Saúdo a acção de generosidade e altruísmo de Lucinda Borges e Paulo Pereira, verdadeiro e bem mais valoroso voluntariado do que a caridadezinha a dias e horas certos dos peditórios dos bancoalimentares.

Mas perante o que fizeram os heróis desta tarde sufocante para todos os que ficaram retidos devido aos incêndios, não posso deixar de questionar: a concessionária da auto-estrada não tem obrigações para com os seus clientes numa situação destas?

Pagamos por um percurso em auto-estrada bem mais do que os custos reais da exploração e manutenção da via, gerando todos os anos lucros de milhões para este e outros negócios garantidos pelo Estado, e a empresa não tem de assumir responsabilidades e tomar medidas quando algo corre mal numa viagem que é suposto ser – e para isso pagamos – rápida, cómoda e segura?

A quem pagaram os automobilistas a portagem, foi ao casal que os ajudou ou à Brisa, que não quis saber deles?

Já nem falo em abrir o rail central na zona onde a via foi cortada, permitindo inverter a marcha e sair para uma estrada alternativa, que era o que uma empresa bem organizada e focada em prestar um bom serviço aos seus clientes deveria ter feito, em vez de os obrigar a permanecer cinco horas parados sob o fumo e o sol abrasador.

Mas ao menos distribuir água fresca e averiguar se haveria bebés, idosos ou doentes crónicos a necessitar de cuidados especiais. Afinal de contas, para além dos cartazes a enfeitar as bermas, para que mais serve a Assistência em Viagem?

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Com uma cultura organizacional mais próxima do ir roubar para a estrada dos tempos antigos do que de um serviço público moderno e eficiente, as concessionárias de auto-estradas continuam a agir impunemente na defesa dos seus lucros excessivos, descurando princípios éticos básicos na relação com os seus clientes.

Dos troços em obras onde se viaja a passo de caracol mas se paga o preço habitual, da roubalheira generalizada dos preços nas áreas de serviço, tudo está organizado para extorquir os automobilistas, com a cumplicidade do Estado que não impõe regras à actividade e frequentemente deixa até degradar as estradas alternativas para garantir as rendas às empresas concessionárias.

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