Afundações do regime

edulog.jpgAcho importante que pessoas e organizações exteriores às escolas e ao mundo da educação se interessem sobre temas e problemas educativos: a formação das novas gerações é uma responsabilidade colectiva, e embora a escola, tal como, a outro nível, a família, estejam na linha da frente desta enorme tarefa, ninguém se deve eximir a dar o seu contributo para a melhoria das políticas, das instituições e das práticas educativas. Como diz o velho provérbio de origem africana, é precisa uma aldeia inteira para educar uma criança.

Dito isto, acrescento que vejo com as maiores reservas a acção de fundações privadas com pretensões mal disfarçadas de influenciar as políticas educativas. Já tínhamos a ambiciosa Fundação Francisco Manuel dos Santos, que embora com uma área de actuação bastante abrangente no domínio das políticas económicas e sociais, sempre se mostrou muito atenta à agenda educativa. Recentemente, associou-se ao CNE de David Justino, uma instituição pública que deveria zelar melhor pela sua independência de interesses privados, na produção de “estudos” ideologicamente enviesados destinados a influenciar o rumo das políticas educativas.

Ultimamente, surgiu um outro tanque-de-pensar que confirma o interesse dos merceeiros do regime na educação portuguesa. Se a FFMS pertence ao grupo Jerónimo Martins, dos supermercados Pingo Doce, o Edulog é o observatório da Fundação Belmiro de Azevedo que também quer ter uma palavra a dizer sobre educação. E segue a mesma estratégia cautelosa do interesse declarado em produzir estudos, em desenvolver linhas de investigação, em “trabalhar indicadores”. O altruísmo destas organizações nunca lhes permite assumir ao que vêm, é sempre a bem das crianças, dos jovens e da nação que patrocinam os estudos e as investigações que hão-de produzir a informação relevante que irá iluminar as boas decisões.

O problema é o pessoal já por cá andar há alguns anos e saber ler nas entrelinhas:

A equipa, que vai gerir o observatório durante três anos, vai trabalhar indicadores da área da educação, que serão tornados públicos, e que têm por objectivo analisar aspectos como o rendimento escolar, indicadores de qualidade ligados às escolas, indicadores de eficiência, entre outros.

O EDULOG anunciou ainda a candidatura resultante da parceria entre a Universidade Nova de Lisboa e a University College London, como a vencedora do outro projecto, que arranca também em Setembro, e que pretende investigar o impacto do professor nas aprendizagens do aluno.

Há outro concurso ainda a decorrer, relacionado com a gestão das escolas e cujos resultados devem ser conhecidos em Setembro, explicou Alberto Amaral.

Leio estas coisas e já estou a antever os chavões e as inevitáveis conclusões, tudo na linha do eduquês de direita que nos foi servido nos últimos anos: eficiência & eficácia, qualidade do serviço educativo, gestão escolar em função de resultados, se o aluno não aprende a culpa é do professor, centralismo e autoritarismo nas escolas mascarados de “liderança” eficaz. E muitos “indicadores”, muita estatística, a empurrar-nos pelos olhos dentro as verdades evidentes em si mesmas dos cantos de sereia neoliberais.

Limpinho sem osso. Mas se me enganar, e oxalá que sim, cá estarei para dar a mão à palmatória…

 

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3 thoughts on “Afundações do regime

  1. Também se pode perguntar como é que são permitidas promiscuidades na acumulação de cargos publicos e privados, como é o caso do Alberto Amaral, na presidência da A3ES e no tacho da fundação do Belmiro.

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  2. O Alberto Amaral é das personagens mais execráveis do regime.

    Já agora a Fundação do Belmiro é proprietária de uma escola privada.

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  3. Vão buscar pessoas influentes às universidades e instituições públicas precisamente para ganhar influência junto de quem decide as coisas.

    Claro que deveria haver um regime severo de incompatibilidades nestas matérias, se necessário através de leis mais restritivas na separação público/privado.

    Pela “ética republicana” está visto que não chegam lá.

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