Marxismo no século XXI

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Associado aos regimes totalitários que em seu nome foram instituídos ao longo do século XX, o marxismo tornou-se, com o desmoronamento do socialismo real, uma ideologia fora de moda. Mas a verdade é que a análise marxista, despida dos dogmatismos e determinismos induzidos pela sua transformação em programa político, continua a ser uma ferramenta essencial para compreender o mundo em que vivemos.

Como se demonstra nesta interessantíssima entrevista a David Harvey, um geógrafo e antropólogo marxista, de 81 anos, britânico a viver e a ensinar, há décadas, nos EUA. A peça merece obviamente ser lida na sua totalidade, pelo que o que aqui fica são apenas alguns fragmentos para abrir o apetite.

O Brexit e a crise da União Europeia:
Há um enorme descontentamento que foi canalizado para esse voto. Algum dele não tem nada que ver com a UE, mas é contra a forma como as elites tomaram decisões, disseram às populações que estas decisões beneficiariam todos, e a maioria não viu nenhum benefício no seu nível de vida ou rendimentos. Na verdade, muita gente perdeu nos últimos sete ou oito anos. Há algumas boas razões para as pessoas se interrogarem sobre para que querem esta UE quando ela faz coisas como fez à Grécia e está neste momento a ameaçar fazer a Portugal. Era suposto ser uma união de ajuda mútua e parece ser uma união cada vez mais com os grandes a porem os pequenos em sentido. Por isso, há algumas boas razões para o voto para lá das que são habitualmente referidas como a xenofobia.

Desemprego
É sem dúvida uma preocupação, mas se perguntar às pessoas que estão empregadas se sentem que estão a fazer um trabalho que as preenche, há muita gente que dirá que é um trabalho sem grande sentido. Há um problema mais vasto que não é apenas o desemprego, e os políticos colocam muita ênfase na ideia de emprego, emprego, emprego, em vez de se perguntarem, que tipo de emprego? São precisos empregos em que as pessoas sintam que estão a contribuir para a sociedade e nos quais tenham orgulho.

Empreendedorismo
Há histórias maravilhosas sobre pessoas que se tornaram empresários brilhantes, mas há muitas que tentaram isso e não resultou. Mesmo quando resulta, envolve imensa auto-exploração. Há cálculos sobre a quantidade de trabalho que é feita colectivamente na Internet e a remuneração por ele é de menos de dois dólares por hora. Há muita auto-exploração a acontecer nessa área e só nos apercebemos das histórias de sucesso que aparecem nos jornais. Quantas pessoas falham? Ou quantas fazem trabalho do qual outras se apropriam? Organizações como a Google ou a Amazon são óptimas a apropriar-se do trabalho dos outros.

O valor do trabalho
De certa forma, estamos a voltar às condições de trabalho do século XIX, que é o que o projecto neoliberal pretendia: reduzir o poder do trabalho e pô-lo numa posição em que não tem capacidade para resistir a processos maciços de exploração. Muito trabalho tornou-se redundante, primeiro na indústria de manufactura e agora também no sector dos serviços. Cada vez mais, como consumidor, eu é que faço o trabalho. Sou explorado no consumo.

A crise financeira de 2007/2008
As autoridades disseram basicamente isto: é preciso salvar o sistema bancário e a finança. Os bancos centrais avançaram, aumentaram as disponibilidades de dinheiro – a flexibilização quantitativa –, e esse dinheiro foi para o mercado de acções, puxou-o para cima, deu bons rendimentos às classes mais altas. Ora, podia-se ter feito o mesmo beneficiando as classes mais baixas. Apoiava-se o direito das pessoas a ter uma casa. E todas essas propriedades que foram parar às mãos dos bancos podiam ficar com as pessoas que precisavam delas. Com a crise, as classes mais altas nos EUA aumentaram o seu rendimento em 12%. Esses 12% deveriam ter ido para as classes mais baixas.

Controlar o sistema financeiro
Estamos sempre a pensar que um capitalismo justo e razoável é possível, mas temos de ver a quantidade de ilegalidades e de roubos que acontecem. Deviam ser controlados, e é aí que o Estado entra, mas é muito difícil controlar muitas destas coisas como vimos com os Panama Papers. O que é extraordinário é que estamos a falar de pessoas imensamente ricas que poderiam pagar impostos, mas que se dão a um imenso trabalho para não pagar nada. Põem o dinheiro no Panamá ou nas ilhas Caimão para não pagar impostos. A ideia de que o capitalismo pode ser desenvolvido de forma honesta… a certa altura interrogamo-nos se isso é mesmo possível.

Educação e saúde gratuitas
Na minha altura, o ensino superior era gratuito. Desde então tornou-se cada vez mais uma commodity. Bernie Sanders veio defender um sistema de ensino superior gratuito. Não há razão para não o fazermos. Acabava-se com as enormes dívidas que os estudantes têm. E os mais novos pensam: “Isso não é uma má ideia.” Não parecem incomodados por ser socialismo, se fizer sentido para eles. Devia haver um sistema de saúde para todos e acabarmos com este disparate das companhias de seguros, que perdem o tempo delas e o nosso com um trabalho inútil que é o de nos negar os nossos direitos.

Liberdade
As pessoas podem preferir ser livres sem acesso a cuidados de saúde. Marx sempre falou em liberdade: os trabalhadores são livres num duplo sentido, o de fazer um contrato com quem quiserem, mas também estão libertos de qualquer acesso aos meios de produção e reprodução. Têm de os comprar. Se não têm poder para os comprar, passam fome. Sim, há uma troca. Não existe um sistema de total liberdade. Um sistema livre é sempre baseado em alguma percentagem de falta de liberdade. A liberdade existe muitas vezes num contexto de certos tipos de dominação. 

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