Fraudes nos exames: a verdade inconveniente

73305039.jpgConsta que alguns professores que estão a ver exames se estão uma vez mais a deparar com uma situação de que todos os anos se ouve falar: nas provas vindas de determinadas escolas, as respostas de escolha múltipla aparecem todas certas. Algumas, rasuradas, sinal de que o aluno respondeu mal e, a dada altura, uma iluminação súbita o levou a substituir os erros pelas respostas correctas.

Ou seja, estamos a falar de uma realidade incómoda, a da existência de escolas que  criam mecanismos informais, mas eficazes, para ajudar os seus alunos a obter melhores resultados nos exames. E embora não se possa garantir que casos destes não possam suceder numa escola pública, há que reconhecer que são sobretudo alguns privados menos escrupulosos que têm interesse numa situação que melhora os resultados dos seus alunos ao mesmo tempo que faz a instituição subir nos rankings dos exames nacionais.

Não era certamente por alimentar preconceitos contra o ensino privado que Salazar obrigava a que todos os exames nacionais fossem feitos nas escolas do Estado, mas por perceber que o interesse comum de escolas e alunos favorecia a fraude se os exames fossem feitos nos colégios.

Claro que o sistema está montado de forma a que nada disto se possa provar e as fraudes de eventuais infractores passem impunes: os classificadores detectam a marosca, mas não sabem em que escola ela foi praticada; estando obrigados a sigilo, o máximo que podem fazer é reportá-la ao Júri Nacional de Exames, onde terá o mesmo destino que idênticas participações feitas noutras ocasiões.

Mesmo a comunicação social que todos os dias faz notícias sobre exames e rankings de resultados foge a sete pés deste tema melindroso que é a batota nos exames, porque a verdade é que ele descredibiliza a narrativa que há décadas se anda a construir de um sistema de avaliação rigoroso e objectivo, onde só passa quem sabe, onde os melhores são os que têm as melhores notas e onde o valor académico de cada aluno ou a qualidade de cada escola se podem determinar com rigor centesimal.

Custa muito, depois de se ter criado no ME uma direcção-geral apenas para produzir e analisar estatísticas sobre educação, reconhecer que todos esses castelos de números que têm sido construídos com base nas notas dos exames assentam em parte na manipulação e na fraude.

E perturba, porque se percebe que não estamos perante a fraude tradicional, a do aluno cábula que tenta copiar, mas das próprias instituições de ensino que conseguem desta forma melhorar os resultados dos seus alunos e, pelo caminho, o seu próprio lugar na lista das melhores escolas. O que dá para perguntar, também, o que andam realmente estas escolas a ensinar.

Não é por escondermos a realidade por trás de muros de silêncio e secretismo que ela passa a ser menos verdadeira. Ficamos é sem saber qual a real dimensão da fraude nos exames promovida ou consentida pelas próprias instituições que aplicam as provas e quem são os prevaricadores que, impunes, a vão repetindo ano após ano.

 

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