Estudos requentados e jornalismo manipulador

justinoupsidedownA notícia é basicamente uma não-notícia: um estudo que o presidente do CNE mandou fazer, com dados requentados da OCDE de 2003 e 2012, em parceria com uma fundação privada cuja visão ideológica da educação aparentemente casa bem com a agenda, as convicções e as ambições do próprio David Justino, que se tem vindo a assumir como uma espécie de ministro-sombra da Educação.

Estes dados desactualizados foram sendo mastigados, primeiro pela própria OCDE, depois pelos autores do estudo agora anunciado, mas não divulgado, num notório exercício de falta de transparência, e finalmente pelos jornalistas que tiveram acesso ao documento e dele quiseram fazer notícia.

Claro que no fim se pode chegar às conclusões mais díspares. Clara Viana, do Público, mantém-se fiel ao alinhamento deste jornal, que se tem acentuado nos tempos mais próximos, de defesa e promoção da escola privada com financiamento estatal:

O desempenho dos alunos das escolas públicas e dos colégios financiados pelo Estado nos testes PISA são próximos, mas tem existido “uma tendência generalizada para que as escolas privadas com financiamento do Estado tenham resultados acima dos da escola pública, apesar de operarem em meios sociais similares”. Esta é uma das conclusões do novo estudo do projecto aQeduto, que será apresentado na próxima segunda-feira, dia 27.

Já Isabel Leiria, do Expresso, tenta uma abordagem mais equidistante e objectiva, acabando por constatar a irrelevância estatística da diferença de valores encontrada:

Os autores do estudo foram ver como se saíram os estudantes que frequentam os três tipos de escolas e que apresentam características semelhantes: de chumbos, de estatuto socioeconómico e de localidades de dimensão semelhantes. Fazendo isso, a diferença média que foi encontrada entre ensino público e privado dependente do Estado (em favor deste último) esbate-se quase por completo e não é estatisticamente relevante. Nesta amostra homogeneizada, a média dos alunos das públicas foi de 517 pontos a e dos colégios com contrato de associação chegou aos 519.

“Muito provavelmente é a franja de jovens mais desfavorecidos, que estão apenas nas escolas públicas e que normalmente têm resultados muito fracos que puxa os resultados médios para baixo. Ao retirarmos esse extremo, as médias aproximam-se. A propriedade da escola não parece afetar o desempenho da maioria dos alunos portugueses que frequenta estabelecimentos públicos ou do ensino privado independente do Estado”, diz Ana Sousa Guerreiro, uma das investigadoras do Aqeduto.

Claro que as “investigadoras”, não se atrevendo a ser tão papistas como a Papisa Clara, é aqui que pretendem chegar: a propriedade das escolas é irrelevante, os miúdos aprendem tão bem nas públicas como nas privadas. O que tanto pode servir de argumento para a manutenção dos esquemas de financiamento estatal ao ensino privado como permite afirmar que a sua retirada não irá, em regra, prejudicar os alunos que passarem a frequentar a escola pública.

Comentar

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.