Heterodoxias: Fim do trabalho, ou redução do tempo de trabalho?

Tc0mFhU4kmQ[1]O fim da estabilidade de emprego característica dos trinta anos gloriosos do pós-guerra e o desemprego persistente, apesar do crescimento, fizeram nascer a ideia de que o «fim do trabalho» estava próximo, de que o tempo de trabalho assalariado estava em vias de perder a sua posição central na sociedade e de que era portanto necessário repensar o mundo noutras bases. O trabalho, no futuro, não poderia desempenhar o seu papel de fonte principal de rendimentos, de dignidade e de reconhecimento social. Daí a necessidade de o completar, por exemplo, com um terceiro sector fornecedor de diversas «actividades» no seio de estruturas comunitárias flexíveis. Nesta perspectiva, a redução do tempo de trabalho seria, é certo, um elemento indispensável para que todos pudessem trabalhar, mas constituiria sobretudo uma opção de uma sociedade em que o trabalho produtivo remunerado já não ocupasse um lugar fundamental. Se uma tal perspectiva respeitante ao futuro do trabalho permite pensar uma nova sociedade onde a economia de mercado capitalista ocuparia apenas uma esfera bem delimitada das trocas, não pode porém ser avançada como uma solução de curto prazo. […]

Desde há cento e cinquenta anos, a duração anual do trabalho a tempo inteiro nos países capitalistas diminuiu entre 30% e 50%. Uma redução que, embora caótica, lenta e conflituosa, é real e resulta ao mesmo tempo dos ganhos de produtividade, das lutas dos trabalhadores, das opções políticas (por exemplo, a jornada de oito horas de trabalho foi concedida após a Primeira Guerra Mundial em numerosos países para melhor integrar a classe operária)…

Esta redução do tempo de trabalho não foi, é certo, muito espectacular, tendo em conta os ganhos de produtividade (que, desde 1870, se multiplicou por entre 10 e 40 consoante os países) e o crescimento da população activa. Mas acabou por se impor de um ou de outro modo. Ainda que, antes de estar regularizada, a sua necessidade se faça muitas vezes sentir de uma forma selvagem: a precariedade (imposição do trabalho a tempo parcial…) e o desemprego desenvolvem-se. Foi o que coube em sorte à maior parte dos trabalhadores até à Segunda Guerra Mundial. Esta redução selvagem reaparece hoje, com os custos sociais que lhe reconhecemos. Impõe-se uma redução concertada do tempo de trabalho, como parte de uma outra distribuição do trabalho e das riquezas.

Gérard Vindt, 500 anos de Capitalismo (1998)

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