Acabar com o 2º ciclo do ensino básico?

domino-6-6-hiIntroduzido em 1973,pelo ministro Veiga Simão – numa das reformas educativas mais importantes da história de Portugal – o 2.º ciclo de escolaridade (na altura chamava-se ciclo preparatório) pode ter deixado de fazer sentido. É esta a convicção de pais, professores, diretores escolares e de ex-ministros, como David Justino, que concordam ter chegado a altura de repensar a forma como se organizam os 12 anos que constituem a escolaridade obrigatória.

O chamado modelo de 6+6, criando um 1.º ciclo alargado até ao 6.º ano e um “novo” 2.º ciclo, do atual 7.º ao 12.º ano, estará em discussão este sábado na quarta Convenção Nacional da Federação Nacional de Educação (FNE), Confederação Nacional das Associações de Pais (CONFAP) e Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP).

A reformulação dos ciclos do ensino básico constava do programa eleitoral do PS para a educação, pelo que seria previsível que o tema viesse a ser colocado em cima da mesa.

Mas do que se tem falado com alguma insistência ultimamente, embora todos digam ser uma mera hipótese de trabalho, é da fusão dos três ciclos do ensino básico num ciclo longo de seis anos, a que se seguiriam outros seis, correspondentes ao ensino secundário.

No ensino básico predominaria a monodocência, e embora os alunos também tivessem algumas áreas disciplinares com outros professores, sobretudo nos últimos anos, haveria sempre um professor titular de turma ao longo de todo o ciclo. Já no secundário prevaleceria a pluridocência e a organização disciplinar do currículo.

Não tenho para já uma opinião definida sobre a matéria pois, como sucede com todas as ideias potencialmente vantajosas, tudo depende da proposta em concreto que for apresentada e da forma como vier a ser implementada.

Pois se o objectivo é induzir, administrativamente, um pouco mais de “sucesso” escolar, sabendo-se que é na transição do 4º para o 5º ano ou, um pouco antes, com fundamento na falta de preparação para o segundo ciclo, que grande parte das primeiras retenções ocorrem, então confesso-me à partida nada entusiasta da medida.

Sendo o redesenhar dos ciclos de ensino pensado e amadurecido no contexto de uma revisão curricular participada, ouvindo-se os professores e outros profissionais no terreno, experimentando e avaliando antes de generalizar qualquer mudança, aí já uma série de medidas poderão fazer sentido e, sendo comprovadamente benéficas, não vejo porque não possam vir a ser aplicadas.

Há contudo bastantes dificuldades a considerar, sendo a primeira, desde logo, a necessidade de rever a lei de bases do sistema educativo. E se as questões organizacionais levantadas por um novo modelo podem ser de resolução relativamente fácil no quadro dos agrupamentos de escolas, já a gestão do corpo docente na transição para o novo modelo poderá levantar problemas complexos, tendo em conta a diversidade de formações e habilitações científicas e profissionais do corpo docente do actual 2º ciclo.

Mas se a ideia é lançar a discussão, então ela deveria ser o mais alargada possível, não só em termos de intervenientes mas também de possíveis modelos alternativos. Poder-se-ia pensar, por exemplo, numa aglutinação dos actuais 2º e 3º ciclos, ocupando os actuais cinco anos ou, eventualmente, encurtando para quatro, ficando um modelo aparentemente mais equilibrado de 4+4+4.

Pessoalmente, questionaria mesmo a utilidade de iniciar a escolaridade aos 6 anos, quando países como a Finlândia, que iniciam a escola “a sério” aos 7 anos, conseguem a prazo maior sucesso nas aprendizagens e resolvem, logo por aí, boa parte dos problemas que potenciam o insucesso escolar. Mas isto talvez seja, tendo em conta os hábitos e os tabus entre nós bem estabelecidos, levar a discussão longe demais.

O que espero acima de tudo é que esta discussão em torno do número de ciclos de ensino e da sua duração e organização não seja apenas manobra de diversão, enquanto outras e mais substanciais matérias vão sendo cozinhadas nos bastidores, em negociações reservadas a interlocutores privilegiados.

2 thoughts on “Acabar com o 2º ciclo do ensino básico?

  1. Esta ideia do DJ surgida não se sabe de onde, de que o 2° ciclo é um enxerto, deve ter alguma fisgada. Tal como alguns técnicos soviéticos que diziam que o Mar de Aral era um erro da natureza, para justificar o terem-no secado com os projetos de irrigação. Na realidade, esta discussão não é muito importante, e como diz o António, esperemos que não seja apenas uma manobra de diversão .Relativamente ao problema das habilitações, parece-me assim à primeira vista que só será um problema se as pessoas quiserem.

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    • O problema das habilitações colocar-se-ia numa eventual integração dos dois ciclos: há professores no 2º ciclo que têm habilitação para o 1º e há outros que não, mas com formação académica para leccionar no 3º ceb e até no secundário. Sendo isto resolvido com os pés, poderia originar uma situação como aconteceu com o fim de EVT e ET no tempo de Crato, com imensos professores destas áreas com horário-zero.

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