Demagogia do ME começa a colher frutos

Numa nota enviada à agência Lusa, a presidente da Federação Portuguesa de Autismo, Isabel Cottinelli Telmo congratulou-se com a publicação do despacho normativo na passada quinta-feira que determina que a redução de alunos por turma sempre que estas tenham alunos com NEE apenas acontece se estes tiverem pelo menos 60% das aulas em conjunto com os colegas.

“A possibilidade de todos os alunos com NEE permanecerem durante 60% do seu período letivo com a sua turma regular, representa um passo importante no caminho para a inclusão na escola pública. Devemos contudo alertar que a boa implementação desta importante medida, implicará a necessidade de reforço dos meios e recursos que permitam a sua operacionalização”, defendeu.

Lg.%20Federação_2011.05.01[1]

Já tem pelo menos um defensor institucional o novo conceito de “inclusão induzida” que o ME pretende aplicar no próximo ano lectivo, obrigando a que nas turmas reduzidas onde estão alunos com currículo individual estes frequentem pelo menos 60% das aulas com o resto da turma.

As palavras bonitas e os bons princípios evocados, tanto pelo ministério como pela dirigente da federação, não merecem em si mesmos grande contestação. O problema está, como quase sempre, na forma como tudo isto vai ser aplicado. O busílis da questão está aqui: “necessidade de reforço dos meios e recursos que permitam a sua operacionalização”. É que colocar na sala de aula, em nome da inclusão, alunos que não chegam a perceber bem o que ali estão a fazer, em muitos casos só é viável e benéfico para eles se houver um professor de apoio para os ajudar e atender às suas necessidades e solicitações. E como não nos chegam para já sinais de que, numa área financeiramente sensível como é a de colocar mais professores nas escolas, vá haver uma reversão das políticas dos últimos dez anos, parece-me que as declarações agora divulgadas serão, no mínimo, precipitadas.

O outro aspecto da questão é a inconsistência do discurso de quem tem afirmado querer trabalhar nos professores e confiar neles ao mesmo tempo que, quando está concretamente em causa entregar a quem lida diariamente com os alunos com necessidades educativas especiais a responsabilidade de desenhar a melhor resposta possível a cada situação, não se resiste à pulsão centralista e economicista de “induzir” em cada escola a tomada das decisões que serão mais favoráveis, não aos alunos, mas ao orçamento do ministério.

A inclusão é obviamente benéfica numa escola que se pretende inclusiva. Mas traduzir isso numa norma administrativa que pode significar, na prática,  um aumento da exclusão destes alunos parece-me, ou de uma maldade desnecessária, ou de um cinismo atroz. Pois estamos a falar de alguns dos alunos mais vulneráveis das nossas escolas, em relação aos quais, tanto o ME como a federação que os diz representar deveriam mostrar mais cuidado. Dispensando o cinismo e a demagogia de evocar elevados princípios quando o que têm em mente são medíocres concretizações.

Comentar

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.