Os papéis do Panamá

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Uma gigantesca fuga de informação, feita a partir dos arquivos de uma empresa de advogados sediada no Panamá e especializada em evasão fiscal e lavagem de dinheiro em paraísos fiscais, permitiu ao Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação divulgar, numa extensa reportagem global, os contornos de uma imensa rede dedicada a esconder património e fortunas, lavar dinheiro sujo, corromper e fugir ao pagamento de impostos. Em Portugal, julgo ter sido o Expresso a lançar a bomba jornalística, mas hoje todos os jornais falam do assunto.

Para o cidadão minimamente informado, os papéis panamianos agora divulgados talvez não tragam grande surpresa em relação ao cancro da economia global que são os paraísos fiscais, esses pequenos países ou territórios autónomos que abrigam empresas-fantasma, onde impera a opacidade e o secretismo e que funcionam como placas giratórias para a circulação de dinheiro que todos os dias é retirado da economia real e dos bolsos dos cidadãos para engrossar fortunas privadas e alimentar a especulação financeira e a criminalidade organizada à escala global.

O que pode surpreender, isso sim, é a dimensão dos negócios que passavam por este escritório de advocacia e, sobretudo, os nomes sonantes que a eles aparecem associados, oriundos não só do mundo da alta finança mas também da política, do futebol e do espectáculo. O rei da Arábia Saudita, o presidente da Argentina, os primeiros-ministros da Islândia e do Paquistão, familiares ou testas-de-ferro do primeiro-ministro britânico, do rei de Espanha e dos presidentes da Rússia, China, Ucrânia e Azerbaijão. Mas também Lionel Messi, Michel Platini, Jackie Chan, Pedro Almodóvar, estão entre os muitos envolvidos. Assim como um português, um tal Idalécio Oliveira, também ligado ao processo de corrupção Lava-Jato no Brasil. E haverá mais, pois foi anunciado que a lista completa será apenas divulgada em Maio.

A amplitude desta mega-reportagem jornalística, que já se diz ser superior ao famoso Wikileaks, demonstra, para quem ainda tivesse dúvidas, que enquanto não forem desmantelados os paraísos fiscais e controladas as transacções financeiras internacionais estaremos sempre à mercê de milionários gananciosos, políticos corruptos e criminosos de colarinho branco e das ligações perigosas entre o dinheiro e todos os tipos de poder.

Se queremos continuar a viver em democracia, temos de fazer prevalecer a política sobre a economia, não permitindo, como já hoje sucede, que o poder do dinheiro se sobreponha às leis nacionais e às escolhas democráticas dos cidadãos.

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2 thoughts on “Os papéis do Panamá

    • Pois, nessa parte lembra o Wikileaks que iria ser, na parte portuguesa, revelado às pinguinhas pelo Expresso e acabou por ser abafado, como era mais do que previsível que sucedesse ao colocar a raposa (o Bilderberg português) a tomar conta do galinheiro…

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