De França, um bom exemplo

O governo socialista francês prepara-se para avançar com uma proposta de lei que retira proteção aos trabalhadores contra a hipótese de serem despedidos, numa tentativa de incentivar as empresas a contratar mais pessoas e reduzir a taxa de desemprego.

A decisão foi altamente contestada pelas forças da esquerda e não só os sindicatos como também grande parte do Partido Socialista (força política a que Hollande pertence) se opõem à reforma laboral.

O primeiro-ministro Manuel Valls afirma que os jovens seriam os maiores beneficiários desta reforma laboral mas foram eles os primeiros a sair à rua para contestar a decisão. Dezenas de milhares de estudantes lideraram os protestos em mais 250 manifestações por toda a França.

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A exploração de um falso conflito geracional para reduzir empregos, salários e direitos laborais é uma estratégia comum no discurso e na acção do neoliberalismo, que por cá tem sido utilizada com algum sucesso. Trata-se de convencer os jovens de que não encontram trabalho porque há demasiadas pessoas mais velhas instaladas em “empregos para a vida”, onde ganham muito e produzem pouco, roubando assim oportunidades aos mais novos em busca do primeiro emprego ou de uma carreira profissional à medida das suas expectativas e qualificações. Que “flexibilizando”, ou seja, despedindo os trabalhadores mais antigos, haverá empregos para os mais novos.

Em França é que, pelos vistos, esta conversa não está a convencer os jovens, que são os primeiros a vir para a rua protestar. E não é o facto de o governo se dizer socialista que os impede de reconhecer e de rejeitar uma clara política de direita.

O que está verdadeiramente em causa não é a preocupação com os jovens, é a defesa de um modelo económico que precisa de cada vez menos trabalhadores mas quer explorar ainda mais os que permanecem empregados. Percebe-se a vontade de despedir prioritariamente os mais velhos, os que têm melhores salários ou usufruem de direitos duramente conquistados. Mas há igualmente a lucidez, da parte dos mais novos, de perceber que a retirada desses direitos também os irá prejudicar a eles, condenando-os a uma vida pior. no futuro, do que aquela que tiveram os seus pais e avós.

E depois há outra coisa que complica o socialismo-na-gaveta de Hollande e Valls: a juventude que protesta não está sozinha. Sindicatos e partidos de esquerda juntam-se à contestação, e mesmo o Partido Socialista Francês está internamente dividido, com muitos militantes e dirigentes em desacordo com os planos do governo socialista.

Multiplicam-se os exemplos de como a receita neoliberal que pretende gerar crescimento económico e criar emprego apenas afunda os países que a seguem na dívida, na recessão e no desemprego. E pergunta-se quantos mais anos, e quantas mais vidas destruídas teremos de suportar, até que os povos europeus consigam finalmente relegar para o caixote do lixo da História o neoliberalismo, este refugo ideológico que interrompeu um caminho de paz, solidariedade e progresso económico e social que vinha a ser percorrido pela Europa desde o fim da Segunda Guerra Mundial.

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