A ofensiva dos colégios, ou o jornalismo tendencioso do Público

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Sinceramente, esperava melhor de Bárbara Wong, uma jornalista especializada em assuntos de educação cujo trabalho acompanho há anos. Percebe-se que tenha, como todos temos, as suas opiniões pessoais. Agora basear-se nisso para escrever uma peça que é toda ela um panfleto a favor da causa dos colégios privados financiados com dinheiros públicos, sem sentido crítico ou o exercício de qualquer contraditório, parece-me um mau serviço ao jornalismo e à credibilidade que um jornal como o Público tem conseguido manter.

Existem estabelecimentos de ensino privados que recebem alunos como se de uma escola pública se tratasse, ou seja, onde estes não pagam. Têm os chamados contratos de associação porque, à partida, ficam em zonas onde a escola pública não chega e, por isso, o Estado acorda com estes colégios um valor para receberem os alunos daquela área. Agora, a Associação dos Estabelecimentos do Ensino Particular e Cooperativo (Aeep) quer conhecer melhor estas instituições e está a pedir-lhes dados quantitativos e qualitativos, de maneira a fazer um livro branco que ficará pronto em Outubro. Este servirá de base para o debate com o Ministério da Educação (ME), que também já prometeu analisar estas instituições.

Claro que a AEEP deita contas à vida, perante a intenção anunciada pelo governo de rever a política dos contratos de associação, eliminando redundâncias na rede em relação ao ensino privado, como aliás já há muitos anos faz com a rede pública, reduzindo turmas e fechando escolas. E defende os seus associados prometendo um “livro branco” e colocando desde já o tema na ordem do dia da forma que melhor sabe,  recorrendo à mentira, à manipulação e à distorção dos factos.

Sendo assim, e já que o Público, perante uma causa em que mostra interesse evidente, perde por completo o sentido de imparcialidade, objectividade e rigor que deveria ter a notícia, façamos aqui as necessárias correcções:

Não é verdade que a maioria dos colégios privados com contratos de associação fiquem em locais onde a escola pública não chega. Isso aconteceria nos anos 80 do século passado, quando os primeiros contratos de associação foram celebrados. De então para cá sucederam-se os casos de colégios construídos nas proximidades de escolas públicas que já comportavam, na altura da construção, todos os alunos da zona. Vivendo e trabalhando numa das regiões do país com maior densidade de escolas privadas, onde as despesas são pagas pelo contribuinte e os lucros revertem para os seus donos, conheço bem exemplos concretos destas situações.

Também não é correcto afirmar que o Estado tem cortado apoios aos privados para construir ou manter escolas públicas. Desde logo, porque a construção de novas escolas tem sido praticamente nula na última década, com excepção dos centros escolares do 1º CEB, onde não existem contratos de associação. E depois porque, proporcionalmente, a redução de turmas e horários docentes tem sido maior nas escolas públicas do que no privado apoiado pelo Estado, onde as boas relações políticas entre alguns dos patrões dos colégios e dirigentes partidários com influência, por vezes directa, no ME, têm impedido, mesmo nos maiores apertos da crise orçamental, que a torneira se lhes feche demasiado.

Quando se invoca o “preconceito ideológico” está-se assim a inverter a questão, pois preconceito existia, isso sim, quando se proclamava a falta de dinheiro nos cofres públicos e se mantinham ou aumentavam financiamentos aos colégios para prestarem o serviço educativo que as escolas públicas, sem aumento significativo de custos, estavam em condições de oferecer. Quando se duplicava despesa no sector, numa prática de gestão danosa dos dinheiros públicos, apenas para afirmar o preconceito de que “o privado é que é bom”. Rever o financiamento aos colégios e manter apenas os que comprovadamente estão a prestar um serviço público necessário não é ideologia, é boa gestão do dinheiro público, algo que se deveria esperar que fosse feito por todos os governos.

Finalmente, sublinhe-se a incoerência de um sistema em que, se por um lado se andou, com os mega-agrupamentos, a uniformizar os projectos educativos nas escolas públicas, acabando com as propostas diferenciadoras que existiam nas escolas que deixaram de ter gestão própria, por outro se invoca essa mesma diferenciação para manter escolas privadas a funcionar em nome da diferenciação pedagógica. E, ainda mais ridículo, que se invoque a ausência de resposta da rede pública para subsidiar, numa pequena localidade, o funcionamento de um colégio com turmas de 2º e 3º ciclo, ao mesmo tempo que se obrigam os alunos do 1º ciclo a fazer maiores deslocações diárias do que os colegas mais velhos, para irem ter aulas no centro escolar da sede de concelho.

Não sei até que ponto o ME resistirá à ofensiva dos privados que, já se percebeu, vão mobilizar todos os seus apoios e recursos para fazer valer os seus interesses. Espero contudo que haja, na eventual reconfiguração do sistema, a necessária coerência, e que caso haja cedências aos privados em nome dos princípios e valores que andam agora a invocar em defesa dos seus negócios, não se esqueça o ME da importância desses mesmos factores para a melhoria da escola pública.

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3 thoughts on “A ofensiva dos colégios, ou o jornalismo tendencioso do Público

  1. Ideias feitas! Há que repeti-las para ver se se transformam em verdades! Esta gente fala do que não conhece! E acham-se cheios de razões! Democracia – para quer serve? Para figurar na Constituição?

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