O pior ministro da educação

Vejo-me com pouca vontade de entrar neste campeonato do pior ministro iniciado pelo João Paulo, no Aventar, e recebendo de volta a resposta pronta do Paulo Guinote. Porque tanto Lurdes Rodrigues como Nuno Crato foram maus ministros que serviram políticas erradas. E, neste sentido, dificilmente poderiam ter feito melhor do que de facto fizeram.

Lurdes Rodrigues foi a ministra socratina da educação que atacou e humilhou os professores como ninguém antes havia feito, congelando a carreira e fracturando-a com a invenção dos professores-titulares, impondo a componente não-lectiva de estabelecimento, onde haveria de incluir as famigeradas aulas de substituição, e criando um execrável e punitivo sistema de avaliação do desempenho que teve o condão de despertar a classe, levando-a a protagonizar a contestação ao socratismo e a realizar as maiores manifestações de sempre promovidas por uma única classe profissional.

Foi também esta ministra que lançou os primeiros mega-agrupamentos de escolas e acabou com a gestão democrática das escolas, criando o actual modelo de direcção unipessoal, e lançou as bases do que viria a ser a PACC. Lurdes Rodrigues, podemos dizê-lo, aplanou o terreno para quantas reformas se quisessem fazer a seguir, com um objectivo estratégico fundamental em mente: domesticar e embaratecer a mão-de-obra docente, reduzindo a sua autonomia profissional e reforçando a sua dependência da hierarquia escolar e ministerial.

Na verdade, se nos esforçarmos um pouco, também encontraremos coisas positivas no seu mandato. Não me quero referir por agora à herança controversa da Parque Escolar, a que conto voltar em breve, mas destacaria uma realidade fácil de constatar: quando saiu de funções, havia em cada sala de aula um computador com internet e um videoprojector. E isto foi, para a maioria das disciplinas, uma pequena e silenciosa revolução, de que se fala pouco, mas que terá renovado mais as práticas pedagógicas do que toda a catrefada de orientações pedagógicas teóricas, e não raro contraditórias, que foram sendo produzidas, ao longo dos anos, pelo ministério.

Nuno Crato, que sucedeu a Isabel Alçada, a continuadora, em versão soft, das políticas de Lurdes Rodrigues, não mexeu em nada de estruturante nas políticas educativas do centrão, mantendo os mega-agrupamentos, o encerramento de escolas do 1º ciclo, os congelamentos de carreira tornados uma inevitabilidade do regime, a gestão unipessoal, tendo juntado a tudo isto uma necessidade – a de reduzir ainda mais os custos da educação – e uma fixação – a dos exames.

Crato disparou exames sobre tudo o que viu mexer: os alunos do 4º ano, mas também os do 6º. Constou-lhe que havia problemas com o ensino do Inglês? Um exame no 9º ano, contratado a uma universidade estrangeira, para ter outro sainete. Os novos professores estão mal preparados? Atire-se-lhes com uma PACC para cima!

Ora esta obcessão com os exames e também com a medição exustiva dos seus resultados, tendo colocado departamentos ministeriais inteiros a coligir, a tratar e a divulgar os dados do sucesso de cada escola, de cada exame, de cada nível de ensino, tem uma justificação lógica ligada por um lado com a falta de dinheiro para executar um verdadeiro programa de governo no sector da educação e por outro com o deserto de ideias sobre a matéria que caracteriza a direita tão neoliberal quanto ignorante que chegou ao poder em 2011.

Prisioneiro dos achismos anti-eduqueses, de um discurso centrado na evocação do rigor e da exigência, mas sempre para serem aplicados aos outros, o ministro que passou grande parte do seu mandato a viajar, tendo dado várias voltas ao mundo por conta do contribuinte, viu nos exames a magia certa que lhe permitiria alcançar o sucesso educativo: havendo um exame os alunos estudam porque querem fazer boa figura, as famílias também se esforçam a ajudá-los e até os professores aumentam o seu empenho, focando as aulas nas matérias realmente importantes, que passam a ser unicamente as que saem nos exames.

O problema é quando estas receitas não funcionam e o insucesso aumenta, em vez de diminuir. Aqui, Crato foi buscar fraca inspiração ao ensino alemão, enxertando no sistema português um arremedo de ensino vocacional que na prática pouco mais é do que uma forma de arrumar os jovens desmotivados ou indisciplinados, para que não “estraguem” as turmas boas e possam passar de ano sem cumprir o que é exigido aos outros e passar de ciclo sem realizar os exames obrigatórios para os restantes.

A austeridade redentora do seu governo fez ainda de Crato o aposentador de milhares de professores desmotivados, o trapalhão que mexeu na lei dos concursos de professores lançando o caos nas colocações e prejudicando milhares de alunos e professores, o forreta de vistas curtas que reduziu quase a zero as obras nas escolas e o reequipamento escolar, deixando um parque escolar em geral mais degradado e envelhecido do que aquele que encontrou.

Termino estas linhas e continuo a sentir-me incapaz, tal como no início, de escolher um ministro melhor do que outro ou, tão somente, o menos mau. Será que alguém consegue? Mais, será que isso verdadeiramente interessa?

Acho que inteira razão teve o sabidolas do nosso ainda presidente, que optou por homenagear os dois e lá deve saber bem o porquê.

medalhinhas

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