E se, para variar, falássemos de Educação?

Os exames, em si, apuram resultados. Uma má classificação obtida por um aluno num exame não nos informa sobre as razões pelas quais isso aconteceu. Assim, a intervenção sobre os resultados só é possível se actuarmos sobre os processos. Aqui reside o grande problema da Educação nacional, já que continuamos obcecadamente a ocupar-nos das diversas formas de medir os resultados em vez de identificar e remover, atempadamente, os obstáculos que impedem a aprendizagem. […]

De há muito que defendo a tese segundo a qual os governos das duas últimas legislaturas se identificaram ideologicamente pela obsessão de reduzir toda a avaliação educacional a simples alinhamentos em escalas quantitativas. Dessa persistência política, de quase uma década, resultou um poder dominante, em nome da eficácia e da eficiência, de controlo social dos professores e dos organismos pedagógicos, que tudo pretende vigiar através de resultados, índices e rankings, qual autoridade única e unificadora de práticas, qual versão moderna de fascismo. O poder a que me refiro tem dominado a gestão do curriculum, orientando-o predominantemente para responder aos exames, retirando autonomia às escolas e liberdade aos professores. […]

Não concordo com tudo o que escreve Santana Castilho na sua crónica semanal no Público, mas destaco este trecho que nos ajuda a alargar um pouco o âmbito da discussão sobre avaliação no ensino básico, que se tem afunilado demasiado no tira-e-põe de exames e provas ou numa dicotomia sem sentido entre exames e provas de aferição, enaltecendo e menosprezando uns ou outros ao sabor de convicções mais ou menos ideológicas ou simplesmente demagógicas e oportunistas.

É um erro continuar a centrar a discussão nas minudências da avaliação externa em vez de assumir claramente a primazia da avaliação interna e contínua que se faz no dia a dia das escolas.

istock_jbryson-10-diverse-group-of-students-c[1]Em vez de rankings de resultados e de estatísticas de sucesso e insucesso, precisamos sobretudo dos meios e das práticas que permitam detectar precocemente as dificuldades de aprendizagem e das condições para agir no sentido da sua superação.

Necessitamos de confiar no trabalho de escolas e professores, usando os instrumentos de aferição externa para detectar e resolver os problemas e para fazer os ajustamentos no sistema que se revelem necessários.

É tempo de parar com o diálogo de surdos em torno da avaliação e de recomeçar a falar, a sério, de Educação.

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