Fim imediato das metas curriculares

aluno[1]Quando se vai tornando consensual a necessidade de infindáveis estudos para corrigir políticas erradas quando ainda há pouco tempo bastava ser-se “anti-eduquês” para se receber o apoio de muitos dos que hoje receiam o “mudar por mudar”, deixem-me desenvolver algumas ideias que tenho deixado por aqui e que ontem expus no blogue de Paulo Guinote e explicar porque é que defendo, no caso das metas curriculares impostas como uma necessidade urgente e imperiosa por Nuno Crato, que o melhor mesmo era acabar com elas desde já.

Entendo que  dar autonomia às escolas para distribuírem, dentro de certos limites, as cargas curriculares das várias disciplinas, e aos professores a autonomia pedagógica para desenvolverem com os seus alunos as abordagens às matérias de estudo que considerem mais adequadas, pressupõe a definição prévia de conteúdos programáticos essenciais.

Sendo assim, as metas curriculares fariam sentido enquanto definição de um tronco comum de um currículo definido a nível nacional, a partir da qual cada escola e cada professor poderia construir a sua própria abordagem aos programas em vigor.

Ora o que temos com as metas curriculares de Crato não é nada disto. Trata-se de uma versão maximalista do currículo, feita com a preocupação de não deixar de fora quase nenhuma matéria do programa e nalguns casos indo até buscar assuntos que não constam nos programas em vigor.

As metas de Crato são um monótono rol de matérias que os alunos devem «conhecer & compreender», entremeadas com umas quantas habilidades como a de ler sem se engasgar um determinado número de palavras por minuto. O que daqui decorre é um ensino prescritivo e mecanicista, onde a individualidade e o ritmo de aprendizagem próprios de cada aluno são pouco respeitados, pois a todos se exige o mesmo e ao mesmo tempo. É o ensino do estudar porque tem que ser, da memorização para o teste e do treino para o exame, após o que quase tudo o que se aprendeu é varrido da mente para dar lugar a nova carrada de matérias que é preciso empinar até ao exame seguinte.

Estruturalmente erradas na forma como foram concebidas e construídas, estas metas não servem uma escola orientada para o sucesso dos alunos, para a promoção de aprendizagens significativas ou para o enriquecimento curricular. Parece-me óbvio que em vez de querer remendar ou endireitar o que já nasceu torto e esfarrapado, se ganharia mais em suprimir estas metas e iniciar desde já um processo de revisão, não das metas, mas dos programas e da organização curricular. Dando tempo ao tempo e oportunidade para que todos os interessados e intervenientes reflectissem e se pronunciassem sobre o assunto.

Pois concluindo, e relembrando a quem já se tiver esquecido, os problemas maiores do sistema educativo não residem nas metas curriculares, mero epifenómeno resultante da examocracia absurda que Crato e os seus sequazes quiseram impor no nosso sistema educativo, mas num acumular de disparates, incoerências e disfuncionalidades que se foram acumulando nos últimos anos: as aulas de 90 minutos, a sobrecarga do currículo no 1º ciclo e a sua fragmentação excessiva no 3º, o empobrecimento curricular resultante da supressão ou redução aos mínimos das disciplinas técnicas e artísticas e das expressões.

 

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