Nuno Crato e a equidade

8932831_pWO3I[1]Entre as opiniões ontem publicadas sobre os rankings escolares, destaca-se a do ex-Ministro da Educação Nuno Crato. Não tanto pela novidade das ideias: defende mais uma vez a sua fé dogmática em que mais e mais exames melhoram, por si só, o sistema educativo; que as aprendizagens relevantes de cada aluno um ciclo de ensino se podem avaliar com rigor através de um exame de 90 ou 120 minutos e que basta dar às escolas mais “informação” sobre os resultados dos exames para que estas “reflictam” e melhorem as suas práticas pedagógicas, deixando de ser necessários investimentos materiais e humanos ou uma verdadeira e reforçada autonomia pedagógica.

O que pretendo destacar no elogio examocrata do anterior ministro é o discurso tipicamente de direita em torno da equidade, um termo algo nebuloso para fugir à igualdade, uma ideia demasiado incómoda para a direita ideológica. De facto, o pensamento de direita assenta, isso sim, na ideia de desigualdade: somos todos diferentes, temos capacidades, interesses, motivações distintas e isso faz com que uns cheguem, ao longo da sua vida, mais longe do que outros. A desigualdade é vista como algo natural, inevitável e, até, benéfico à sociedade.

No campo da educação, há no entanto um ponto de convergência com o pensamento de esquerda, em torno da chamada igualdade de oportunidades: independentemente do grau maior ou menor de desigualdade que estamos dispostos a admitir na sociedade, é consensual que ninguém tem deve ficar condicionado pelas limitações do meio em que nasceu, pelo que a sociedade deve, através da educação, permitir a cada criança o desenvolvimento pleno e integral das suas capacidades, de forma a poder vir a ser aquilo que escolher e que o seu esforço e mérito lhe permitam alcançar.

Equidade surge então como sinónimo de igualdade possível: aplicar princípios de igualdade e justiça a uma ordem social e económica por natureza injusta e discriminatória e que se pretende que assim continue. Traduz-se em permitir que, numa sociedade que continua a ser dominada pelos ricos, alguns filhos dos pobres especialmente trabalhadores e talentosos possam ascender no elevador social e, quiçá, ser até cooptados, por via profissional ou matrimonial, entre a gente bem. Desde que se acomodem à “ordem natural das coisas” da qual serão daí em diante vigorosos defensores.

Como se dizia entre a aristocracia inglesa, conformada com a ocasional escapadela de alguma das suas jovens donzelas, enamorada pelo moço das cavalariças: “até as melhores terras precisam, de vez em quando, de um pouco de estrume”.

Se 10% dos filhos de gente pobre chegarem à Universidade, onde já se encontram 90% dos filhos dos ricos, isto significa que os mais pobres estão a ter a sua oportunidade e portanto o sistema funciona, independentemente de as suas barreiras impedirem o acesso à maioria dos desfavorecidos. Estes são encaminhados para vias escolares e profissionais de segunda escolha, mas isso é apenas porque não querem ou não dão para mais. Já para os jovens da classe alta ou média-alta essas mesmas barreiras são facilmente contornadas matriculando-se nos ribadouros e quejandos, que garantem o percurso facilitado até ao curso superior pretendido.

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