A lista negra de Hanushek

Noticia o Público que mais um especialista da Universidade de Stanford que veio à Fundação Gulbenkian apresentar os seus estudos e teorias sobre economia da educação. Com uma conversa que deve ser música para os ouvidos dos governantes e ideólogos da direita, Eric Hanushek defendeu algumas ideias que pretendem passar por giras e originais, sendo que outras não conseguem disfarçar o odor bafiento do eduquês de direita.

fired[1]Que se substituíssemos os 4% dos professores menos “eficazes”, o que quer que isso seja, obteríamos ganhos assinaláveis no desempenho dos alunos e subiríamos não sei quantas posições no ranking da OCDE. Mas se a substituição afectasse 6 a 10% dos docentes, então aí era limpinho sem osso, ficávamos logo ao nível da Finlândia, o país europeu mais bem posicionado.

Sim, porque as teorias do especialista andam todas à volta de rankings, de números que traduzem a eficácia dos sistemas educativos e por isso, e tal como uma colega da sua universidade que também cá esteve recentemente, defende exames e mais exames, que entende como a única forma de quantificar a evolução dos alunos ao longo do percurso escolar.

E claro, como não poderia deixar de ser, o doutor é dos que acham que a quantidade de alunos numa sala de aula é um factor relativamente irrelevante. Que se o professor for bom trabalha e obtém bons resultados com qualquer número de alunos.

Claro que estas ideias dão para fazer umas conferências que garantem ao especialista ganhos certamente maiores do que os bónus que ele propõe que sejam pagos aos professores bem sucedidos a comprovar, com bons resultados dos alunos, o acerto das suas teorias. Mas a verdade é que estas deixam muitas pontas soltas e demasiadas contradições por resolver:

  • Quando se propõe excluir da profissão os 4% piores professores, além do alegado impacto positivo nos resultados dos alunos, consideraram-se os efeitos negativos do processo de classificação dos professores necessário para chegar à “lista negra”, a sua exequibilidade e, além de tudo o mais, porque é que ninguém, nem nos EUA ou Inglaterra, onde o mestre nos diz que isto está tudo mais do que estudado, segue a brilhante ideia?
  • Se excluir professores da profissão é o caminho para subir nos rankings até ao lugar onde se encontra a Finlândia, porque é que este país chegou até lá sem despedir professores?
  • Se bons resultados educativos aumentam o PIB, porque é que os EUA, com o maior PIB mundial, têm resultados modestos, enquanto outros países, com bons resultados educativos, como a ultimamente muito citada Polónia, acabam a exportar mão-de-obra qualificada que não é absorvida pelo crescimento moderado do seu PIB?
  • Se o apoio individualizado é a chave para o sucesso educativo, e é essa a verdadeira e grande lição que nos dão a Finlândia e outros países com sistemas de ensino de referência, como é possível ter sucesso com turmas de 30 alunos?

A visão de Hanushek é afinal a visão determinista e economicista de quem olha para os alunos como recipientes vazios que interessa formatar e preencher e para os professores como transmissores acríticos de conhecimentos uniformizados de forma a serem debitados e posteriormente reproduzidos em exames que aferem da eficácia do sistema. E para promover o sucesso, instituem-se bónus salariais para os que conseguirem apresentar alunos com melhores resultados.

O mais intrigante de tudo é o fascínio que os eduqueses dos EUA continuam a exercer sobre uma certa elite intelectual do nosso país, e que já vem, pelo menos, do tempo dos famosos mestrados de Boston. Um país que, tendo muitas escolas de excelência, não consegue no seu conjunto ir além de resultados educativos pouco mais do que medíocres, tendo em conta todo o potencial económico e humano que poderia mobilizar, parece-me ter muito pouco a ensinar-nos.

Seria caso para, seguindo o sábio parecer de mestre Hanushek, procurarmos melhores professores, que este parece fazer parte da lista negra dos 4%…

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