O peso da oralidade

balanca_12[1]Singrando por este mar dos “pesos” em que se vem tornando a avaliação dos alunos nas escolas portuguesas, o MEC decidiu que havia também de meter a sua colherada, alterando o que estava estabelecido em relação ao Português do Secundário: passou de um valor fixo de 25% para um mínimo de 20% o peso a atribuir à oralidade na classificação interna, deixando ao critério das escolas a fixação do valor em concreto.

A Anproport diz que não concorda, mas também não percebo muito bem a argumentação deles: por um lado defendem a autonomia das escolas na definição do peso da oralidade, mas por outro acham também que as metas curriculares são determinantes. E como estas tendem a desvalorizar a oralidade em favor da escrita, da leitura e da gramática, deduz-se que a associação gostaria que aquela valesse ainda menos do que os 20% que agora são definidos como mínimo.

O que me parece é que se está há demasiado tempo a entrar num desvario avaliativo do qual o MEC tem a responsabilidade maior, embora nem as direcções escolares nem os próprios professores estejam isentos de culpas. A obsessão com os rankings e com toda a estatística do sucesso que lhes vem associada, os desvios em relação às médias, as comparações entre notas internas e externas, tudo isso tende a passar para segundo plano não só a heterogeneidade das comunidades educativas mas também a diferença fundamental entre dar uma nota que resulta do trabalho do aluno durante um ano inteiro, com múltiplos parâmetros de análise, e o resultado de um exame escrito onde em duas horas supostamente se avaliam os conhecimentos e competências adquiridos em dois ou três anos de escolaridade.

Há uma contradição insanável, não na coexistência de avaliações internas e externas, mas na expectativa de obter os mesmos resultados a partir da aplicação de parâmetros avaliativos diferentes. E, pior ainda, pretender que a semelhança das médias das duas avaliações possa ser um indicador de qualidade da avaliação interna.

Não me parece que a questão se resolva diminuindo cada vez mais o peso da oralidade e de outros elementos de avaliação obtidos no contexto da aprendizagem em sala de aula. Pelo contrário, andaremos melhor se abandonarmos o culto insano da examocracia, assumindo de uma vez por todas que há componentes importantes da aprendizagem que os exames não conseguem avaliar ou que o fazem de forma muito imperfeita. E que não se devem comparar directamente números que efectivamente não são comparáveis.

Os exames podem ser instrumentos úteis de aferição e monitorização do sistema educativo, dando ao mesmo tempo, a cada aluno, um feedback do seu nível de conhecimentos e aptidões. Podem servir de referência em relação à aplicação de um programa que é para cumprir e de um currículo nacional a que todos os alunos, independentemente da escola que frequentam ou do meio social em que se integram, devem poder aceder. Mas a nota do exame é apenas um número: indica o resultado que, naquela prova, o aluno conseguiu alcançar. Diz-nos o que o aluno fez, não nos diz o que o aluno é, nem o que é capaz de fazer noutros contextos.

A alternativa examocrata seria introduzir nos exames nacionais de Português uma prova oral a realizar por todos os alunos, e nesse caso avaliariam também a oralidade, que teria o seu peso específico na classificação final. Mas no MEC ainda devem estar traumatizados com o pesadelo logístico que foram as orais de Inglês do 9º ano, que em muitos casos nem se chegaram a realizar. E assim sendo, aumentar a complexidade do sistema de exames para o tornar coerente com as teorias, as crenças e os preconceitos examocratas também não parece ser o caminho. Querem exames, sim, mas exames baratos, rápidos e que lhes dêem – a eles! – pouco trabalho.

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