Da abstenção

abstençãoIniciada oficialmente a campanha eleitoral, sucedem-se os apelos ao voto e, também, ao abstencionismo.

Ora bem, não sendo o voto uma obrigação, respeito plenamente o exercício de liberdade individual dos que decidem não votar. Mas, com todo o respeito, não me convencem.

Sendo a democracia feita de escolhas livres dos cidadãos, a atitude de não participar põe em causa, se for assumida por uma parte muito elevada da população, o próprio sistema democrático. Quando um eleitor não vai votar, isso significa que abdicou de fazer a sua opção política, confiando no que os restantes eleitores decidam por ele.

No fundo, o abstencionista é geralmente alguém que não acredita que as eleições possam provocar grandes mudanças e por arrastamento também não acredita na utilidade do seu voto. Nesse sentido, o abstencionismo é apenas uma forma de situacionismo, tão legítima como a da maioria dos que votam, elegendo à vez um dos dois partidos do centrão.

Contudo, há um argumento interessante que tem vindo a ser usado com alguma frequência pelos descrentes no actual sistema político. A regra das cadeiras vazias, que basicamente se destinaria a dar um sentido a um voto não expresso, o do cidadão que não foi votar ou que chegado às urnas entregou um voto em branco ou nulo. Se estes cidadãos não escolheram ninguém para os representar, então os lugares correspondentes deveriam ficar por preencher. Por exemplo: se votam apenas 60% dos eleitores só deveriam ser ocupados 60% dos lugares no Parlamento.

Mas a verdade é que as leis eleitorais são feitas pelo Parlamento, e de nada adianta querermos que as leis que regem a nossa vida colectiva sejam diferentes se não somos capazes de eleger as pessoas comprometidas com as mudanças que reivindicamos. O “devia ser assim” pode ser importante para a discussão intelectual, mas no campo da acção política o que tem de se questionar é o que estamos dispostos a fazer para que as coisas mudem no sentido que queremos.

Pois a grande vantagem da democracia sobre todos os outros sistemas políticos é a possibilidade que dá aos cidadãos de intervirem politicamente, retirando do poder governantes passados da validade ou escolhendo em cada momento eleitoral o projecto político que a maioria dos cidadãos considera mais adequado. Ou seja, cria alternativas e permite as reformas necessárias do sistema, evitando as rupturas que noutros sistemas podem originar conflitos violentos, guerras civis e revoluções. E isto funciona tanto melhor quanto mais esclarecidos, interessados e intervenientes forem os cidadãos.

Agora se cremos verdadeiramente que um sistema político é irreformável por dentro, então só nos resta agir exteriormente para impor as mudanças necessárias. Mas como a revolução não está na ordem do dia, ficar à espera que o sistema caia de podre ou que alguém venha um dia oferecer o poder, de mão beijada, àqueles que pelo abstencionismo sempre mostraram indiferença pelo nosso destino colectivo, é uma atitude verdadeiramente inconsequente.

O poder, tal como a natureza, tem horror ao vazio, e por isso as cadeiras do poder nunca ficam desocupadas. O que podemos e devemos fazer é contribuir para que alguns assentos mudem de dono, e que os novos ocupantes tenham as qualidades necessárias e sejam em número suficiente para poderem decidir de forma diferente, ou pelo menos influenciar as decisões, não se deixando manietar e corromper pelos vícios dos que já estão instalados.

One thought on “Da abstenção

Comentar

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.