Turmas homogéneas, sim ou não?

brincandoA Madeira vai pôr em prática no próximo ano lectivo um projecto-piloto que irá separar os alunos consoante o desempenho académico dos anos anteriores.

O objectivo é actuar no início do 2.º e 3.º ciclos — no 5.º e 7.º anos —, formando turmas com os alunos que revelaram mais dificuldades de aprendizagem, reforçando o apoio pedagógico, deixando os restantes prosseguirem em turmas com currículos regulares.

O projecto, que será adoptado em sete estabelecimentos de ensino, pretende, de acordo com a Secretaria Regional de Educação (SRE), combater o insucesso e o abandono escolar, através da promoção de ritmos de aprendizagem diferentes, mas está longe de ser consensual.

Pais e professores temem que os critérios utilizados para formar as turmas agravem as desigualdades e promovam a discriminação nos recreios. Jorge Carvalho, secretário regional da Educação, está convencido que não e diz que o “politicamente correcto” tem-se revelado penalizador para muitos alunos.

Ora aqui está uma questão complicada e sobre a qual é difícil chegar a conclusões definitivas. E iniciar a conversa falando em “alunos bons” e “alunos maus” que serão separados em turmas diferentes é a pior forma de abordar o tema.

A verdade é que a pedagogia andará sempre à volta disto, conseguir que todos os alunos aprendam, e a partir daí, e sabendo que nunca poderemos ter um professor para cada aluno, encontrar a forma de organizar as turmas ou os grupos escolares da forma mais adequada às aprendizagens de todos.

As turmas heterogéneas têm a vantagem da diversidade, de levar os alunos a interagir com pessoas e em contextos diferentes dos que o seu meio sócio-familiar lhes proporciona. Os que têm mais dificuldades são mais facilmente motivados pelo exemplo de outros colegas mais empenhados e despachados, e mesmo estes acabam também por ganhar alguma coisa com o relacionamento interpessoal mais rico e estimulante e o ambiente mais solidário e cooperante que se pode criar neste tipo de turmas.

Uma turma homogénea é aquela em que, seja o aproveitamento bom, fraco ou regular, há poucas variações em relação à mediania. Quase todos os alunos estão ao mesmo nível quando às aprendizagens a realizar. Nestas turmas é mais fácil encontrar um ritmo comum a todos e nesse sentido tornar mais eficaz o processo de aprendizagem. Mas também pode haver problemas: se a turma é globalmente fraca, pode haver pouco estímulo à aprendizagem, pois não há alunos que se destaquem dos restantes de forma a “puxarem” pela turma. Os resultados fracos ou medianos que se esperam à partida daqueles alunos tornam-se um pesado obstáculo a que se vá mais além. E se é uma turma só de bons alunos, o ambiente pode tornar-se demasiado competitivo, levando-os a centrarem-se demasiado nos resultados em vez de desenvolverem o espírito crítico e a criatividade.

Não havendo soluções definitivas, os meus quase trinta anos de experiência pedagógica mostraram-me empiricamente que, se o número de alunos com dificuldades é reduzido, estão melhor em turmas heterogéneas. Quando são muitos, e sobretudo quando são males profundos e que vêm de trás, como insucesso escolar repetido, absentismo, problemas familiares graves, aí as turmas especiais podem ser uma solução temporária ou menos má a considerar, porque se pode criar um contexto escolar mais adequado a estes alunos. Mas também tenho verificado que meter um aluno numa destas turmas significa quase sempre “cortar-lhe as pernas” em relação à expectativa de que possa voltar a integrar uma turma regular.

Em relação à experiência que se pretende desenvolver na Madeira, as críticas que são veiculadas na notícia deixam-me alguma perplexidade, sobretudo porque não vejo ali nada de especialmente novo em relação ao que se faz há muitos anos no 2º e no 3º ciclos do ensino básico, que é constituir turmas especiais, com um currículo mais prático, simples e acessível, e colocar nestas turmas os alunos mais fracos. Há uns anos eram turmas de Currículos Alternativos, depois chamaram-lhes PCAs, mais recentemente apareceram os CEFs e já com o actual governo o Ensino Vocacional. Também uns projectos algo esotéricos dos “ninhos”, das “turmas-mais” e outras, seguiam a ideia-base de que alunos com dificuldades graves em aceder ao currículo regular ganham bastante ao serem colocados temporariamente em grupos mais pequenos para fazerem um trabalho mais específico e direccionado às suas dificuldades.

A única coisa que me parece diferente, aqui, é que as turmas não são rotuladas de qualquer coisa, o currículo continua ser o mesmo e as turmas onde estarão os alunos mais fracos terão apoios suplementares, incluindo o recurso a pares pedagógicos em algumas aulas ou disciplinas. Dar-se-á mais a quem mais precisa, partindo do princípio de que, se lhes forem dados os meios adequados, todos os alunos a quem não foram diagnosticadas necessidades educativas especiais conseguirão aceder com sucesso ao currículo regular e desenvolverão as aprendizagens previstas para o seu ciclo de ensino.

Sendo para fazer da forma que é dito, e não a antecâmara para algo que não se quer dizer, parece-me bem.

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