Pode trazer-me giz, senhor doutor?

Com o vagar imposto pela burocracia, os concursos para seleccionar os novos assistentes operacionais que tanto vigiam os recreios como limpam os WC já arrancaram em muitas escolas. Sem surpresa, os directores vêem chegar currículos de licenciados.

Os directores contactados pelo PÚBLICO, no entanto, consideram que “à partida” não há inconvenientes nem vantagens na selecção de licenciados quando os lugares apenas exigem a escolaridade obrigatória (que depende da data de nascimento dos candidatos). “O importante é o que as pessoas dão de si – já tive funcionários com o 9.º ano que eram excelentes trabalhadores e uma licenciada que considerava que fazer limpezas, por exemplo, era uma tarefa pouco digna, e que causou alguns problemas. Mas também já vi trabalhar uma assistente social numa escola do 1.º ciclo que fez um trabalho extraordinário” – exemplifica Gaspar Vaz. Todos lamentam, apenas, que a situação resulte da falta de saídas profissionais – “É ilustrativo do estado do país e não deixa de ser um desperdício de recursos”, comenta Manuel Pereira, presidente da Associação Nacional de Dirigentes Escolares.

“Naturalmente que o desejável é que pudessem fazer algo adequado às suas habilitações”, concorda Filinto Lima, o presidente da ANDAEP, que ainda não começou a receber candidaturas mas garante que já foi contactado por pessoas com mestrado e doutoramento a pedir informações sobre o concurso.

A notícia é elucidativa, pelo que deixo apenas duas breves notas:

  1. Abençoado ano eleitoral que está a fazer mexer a pesada burocracia do MEC a uma velocidade que, apesar de ainda vagarosa, há muito tempo não era atingida, e por este andar ainda “corremos o risco” de abrir o ano lectivo com todos os assistentes operacionais colocados a tempo.
  2. O “excesso de habilitações” continua a marcar negativamente o mercado de trabalho num país que a custo e com demasiadas resistências e hesitações tem vindo a melhorar significativamente os níveis de escolarização e formação académica da sua população jovem. Qualificamos pessoas para desempenharem tarefas que não correspondem à formação e competências que adquiriram, e isto deveria inquietar-nos e fazer-nos agir. A verdade é que se tornou uma triste normalidade que, como reconhecem os directores escolares, há muito deixou de surpreender.

Alunos-no-recreio[1]

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