A máquina de meter alunos na Universidade

Há um nicho de mercado muito importante a alimentar o crescimento do ensino privado, aquele que, pegando em alunos medianos ou bons em termos de aproveitamento, consegue elevar os seus resultados de forma a conseguirem as médias necessárias para entrarem nos cursos universitários mais pretendidos.

ribadouro[1]Há muitos colégios a trabalhar neste sentido, e as listas que a comunicação social ontem publicou apresentam apenas os que mais se destacam na manipulação da avaliação interna de forma a inflacionar as notas de candidatura. Entre eles, há um que é uma verdadeira máquina a meter alunos nas universidades e que por esse motivo todos os anos é referido na comunicação social: o Externato Ribadouro, no Porto.

O palmarés desta escola é impressionante, e eles próprios não fazem segredo dos números obtidos do programa ENES: no ano passado colocaram 636 alunos no ensino superior na primeira fase, 93% dos que se candidataram. Mais de um quarto, 164 precisamente, entraram em Medicina, o curso com médias mais altas.

Ora bem, como é que estes milagres se conseguem? Cada escola terá os seus truques e certamente também algum mérito da parte dos seus professores e directores, e seria preciso trabalhar dentro de cada um destes colégios para descrever com pormenor e exactidão tudo o que cada um faz. Mas há linhas gerais de actuação que todos seguem e que até mesmo as escolas públicas, com menos recursos e menos autonomia, tentam, em parte, implementar:

  • Uma selecção à entrada, imposta pelo pagamento de propinas caras, que forma uma clientela de alunos provenientes maioritariamente da classe alta ou média-alta, naturalmente mais bem preparados e motivados para aprender;
  • Turmas homogéneas – no Ribadouro chegam a formar turmas específicas para alunos que vão para Medicina, outros que vão para Engenharias, e por aí adiante – com reforços extracurriculares nas disciplinas sujeitas a exame nacional e aulas suplementares para treino específico na resolução de provas e exercícios semelhantes aos que surgirão no exame;
  • Na avaliação interna das disciplinas não sujeitas a exame, atribuição da nota máxima, ou perto disso – os dezanoves e vintes não serão confrontados com o resultado de uma nota externa, pelo que a nota interna não precisa de reflectir as aprendizagens reais dos alunos, indo antes ao encontro das elevadas expectativas dos alunos e das famílias e do facto indesmentível de que estes pagam bem para serem bem servidos;
  • Já nas disciplinas com exame as cautelas terão de ser maiores, pois para “puxarem” pelos alunos não poderão ser mãos-largas nas notas, pelo menos no início. No final, as notas internas são também inflacionadas, como as estatísticas do MEC claramente demonstram, a fim de compensar a descida quase certa no exame nacional.

O actual sistema de acesso ao ensino superior, uma vaca sagrada do regime na qual ninguém quer mexer, está assim, a distorcer os objectivos, as finalidades e a organização do trabalho pedagógico no ensino secundário. Quando algumas escolas privadas assumem que começam no 10º ano a treinar os alunos para os exames que irão realizar no 12º, as prioridades estão claramente invertidas. E quando o poder financeiro das famílias determina a capacidade dos seus filhos acederem ou não aos cursos superiores da sua preferência é a própria equidade do sistema educativo que está posta em causa.

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6 thoughts on “A máquina de meter alunos na Universidade

  1. A realidade do ensino secundário do Porto conheço bem, é onde vivo. Esse externato, ano após ano cresce. Dos 600/700 alunos no secundário durante os anos 90 e primeira década deste século passou para 1700. De 2010 para cá (entretanto criaram um novo pólo, numa antiga fábrica de produtos farmacêuticos) foi sempre a crescer, até ao 9º ano são apenas 300 alunos, porque para os filhos adquirem a base das aprendizagens os pais preferem outras paragens.

    Não são únicos que vendem entradas no ensino superior, quase todos os privados aqui da zona são extremamente generosos nas notas internas, como mostram os dados do MEC.

    Consequências:

    1) Nas escolas públicas quase não há alunos que ambicionam classificações acima dos 18 valores, os que tem esse objectivo saem.
    2) Queda enorme das escolas públicas no ranking do secundário, escolas como a Aurélia de Sousa (a poucos metros deste externato), Garcia de Orta, Filipa de Vilhena, passaram a ocupar posições modestas. Uma coisa é levar a exame 40% de alunos médios, 40% de alunos bons e 20% de excelentes, quando bons e excelentes ficam em minoria a média global ressente-se, é o cenário actual.

    E só mais duas notas:

    Os proprietários desta fábrica expandiram nos últimos anos as linhas de produção, adquirindo o Externato Camões (em Gondomar) e o Colégio da Trofa (na Trofa, adquirido à diocese do Porto).

    Proprietários, um casal, formado por 2 professores aposentados do ensino público. Ele na Secundária Infante D. Henrique e foi inclusivamente Director Regional Adjunto do Norte entre 2002 e 2005. Ela no 2º ciclo da Escola Augusto César Pires de Lima.

    Entre os clientes estão os filhos dos professores das Escolas Secundárias do grande Porto (muitos mesmo, quando era QZP e estava numa Secundária do Porto, em 10/12 professores com filhos no Secundário, 8 tinham lá os rebentos). Os mesmos que na pública não atribuem mais de 18 valores.

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    • Caro DA

      Agradeço as achegas, que completam bem o quadro geral que tentei traçar.

      Realmente a preparação de alunos que podem pagar propinas elevadas para conseguirem notas que os coloquem à frente dos outros é um grande negócio que deixa muita gente satisfeita, e por isso não prevejo que quem o pudesse fazer lhe queira pôr cobro: interessa às famílias que compram cartão de embarque prioritário para os filhos em direcção à universidade; aos empresários da educação que vão aumentando os lucros e alargando o negócio e aos governos que comprovam desta forma a superioridade dos mercados e da iniciativa privada a resolver um problema de muitos cidadãos, o de colocarem os filhos no curso superior pretendido.

      Em suma, uns fazem o secundário no privado para obterem notas que lhes garantam lugar nos melhores cursos das universidades públicas; outros não conseguem nas escolas públicas as médias desejadas e formam, ano após ano, a maior clientela das universidades privadas.

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  2. […] Regra geral, estes colégios privados que se especializaram na melhoria de classificações dos alunos do secundário que querem entrar em Medicina ou noutros cursos universitários de média elevada cobram mensalidades caras pelos seus serviços, que todavia os pais pagam sem pestanejar. Pertencem a outro campeonato, bem diferente dos que querem os filhos “no colégio” mas sem desembolsar o pagamento da respectiva propina. Como este de que já aqui falei. […]

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