Exames nacionais no 4º ano? Não, obrigado!

Originalmente publicado n’A Educação do meu Umbigo em 07/05/2013

BE+cartoon+essay+DP[1]Em dia de estreia dos exames nacionais do 4º ano, perdoem-me por não abordar o tema na perspectiva de ser “traumatizante para as criancinhas, ou nem por isso” que alguns têm vindo a seguir. Não porque se não possa ou deva ir por aí, mas porque entramos, a meu ver, num campo demasiado aberto à subjectividade e ao preconceito. Não tenho dúvidas de que a maioria dos miúdos dirão que fizeram o exame “na boa”, assim como também não me custa a crer que outros não terão dado de si o melhor de que seriam capazes devido ao contexto em que foram postos à prova.

O que nos leva à questão para mim essencial, que é a de saber se o exame nacional é a forma pedagogicamente mais adequada para avaliar miúdos de 9 ou 10 anos. Porque a generalidade dos países, mesmo aqueles que separam nesta idade os meninos “inteligentes” dos “normais” e dos “outros”, reservando a cada um dos grupos um percurso escolar diferenciado a partir do 5º ano, conseguem fazê-lo sem o recurso a exames nacionais.

De facto, se a cultura da avaliação escolar centrada nos exames parece ter ganho terreno nos últimos anos em diversos sistemas educativos, a verdade é que a generalidade dos países com os quais gostamos de nos comparar não usa os exames nacionais em idades tão precoces, e os que o fazem avaliam por amostragem ou utilizam algo semelhante às nossas antigas provas de aferição. Mais do que aplicar a cada aluno um carimbo que em muitos casos nada significa de relevante em relação às suas reais potencialidades, interessa sobretudo avaliar o processo de aprendizagem no seu todo, incluindo o trabalho dos professores, a organização da escola, as políticas educativas.

A aposta em mais exames, em mais anos de escolaridade e com maiores consequências no percurso escolar dos alunos que se faz entre nós tem a originalidade de chegar este ano ao 4º ano de escolaridade, ao arrepio do que se faz por toda a Europa e que só encontra paralelo na ilha de Malta. Somos livres de seguir o nosso caminho e de sermos originais, como o fomos em coisas boas – a gestão democrática das escolas – e más – os mega-agrupamentos – mas convém saber que estamos a trilhar um percurso que mais ninguém segue e a inventar necessidades que mais ninguém tem.

Uma verdade difícil de negar é que os exames, mais do que solução seja para o que for, são a expressão de duas tendências muito fortes no nosso sistema educativo:

  • O facilitismo que tenta encontrar resposta para problemas estruturais em soluções simplistas, imediatas, pouco dispendiosas e adequadas a uma gestão política dos procedimentos e dos resultados em função dos ciclos eleitorais;
  • O centralismo que, apesar das juras e promessas em torno de autonomias, comunidades e sociedades civis, acaba sempre a tentar resolver os problemas, reais ou inventados, através de uma receita universal resultante de estudos feitos por encomenda ou, as mais das vezes, do palpite de alguns iluminados ministeriais.

Os exames no 4º ano serão assim a expressão de uma necessidade demagógica de inventar mais uma pseudo-reforma que disfarce o vazio de ideias e estratégias da política educativa deste governo. Enquanto se discutem estes exames vai-se protelando a avaliação a sério que precisaria de ser feita, não só aos alunos ou aos professores, mas sobretudo aos políticos demagogos e incompetentes e aos medíocres gestores da nossa administração educativa. Ignora-se a necessidade de enfrentar as dificuldades e problemas que afectam o 1º ciclo do ensino básico e que são obstáculos à melhoria de resultados escolares que, apesar de tudo, este eterno parente pobre do nosso sistema educativo tem vindo a conseguir.

Aliás, e se dúvidas houvesse, é esclarecedora a súbita aparição pública do Ministro da Educação neste dia de exames, depois de tantas vezes ter escolhido o silêncio envergonhado e comprometido quando na ordem do dia estiveram outras questões bem mais graves e estruturantes para o sistema educativo, os seus alunos e os profissionais de educação.

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