Paternidade e aborto: a eterna hipocrisia da direita

Debaixo de uma chuva de críticas dos partidos mais à esquerda, a maioria de direita lá aprovou as alterações à lei da interrupção voluntária da gravidez destinadas a dificultar e a humilhar as mulheres que por opção própria – essa sagrada liberdade de escolha que noutros contextos tanto valorizam! – decidem interromper, até às dez semanas, uma gravidez indesejada.

Terrorismo moral sobre as mulheres, disse-se então, e com razão, porque o que a atitude revanchista da direita revela é, além da habitual hipocrisia, a prevalência de uma mentalidade misógina incapaz de aceitar tanto uma efectiva igualdade de género como a dignidade plena da condição de mulher.

A direita moderna mas “conservadora nos costumes” que acha que as mulheres não devem ter o direito de abortar e que é contra o “casamento gay” porque “cada criança deve ter um pai e uma mãe”, como disse em tempos o líder parlamentar do CDS, Nuno Magalhães, é a mesma que convive bem com a antiga tradição dos “filhos de pai incógnito” que burgueses e fidalgotes iam fazendo entre as criadas, jornaleiras e outras mulheres e raparigas pobres e dependentes que lhes caíssem no goto.

nuno_magalhaes_pp_3[1]Vem isto também a propósito de um caso de que se falou – pouco – há uns meses atrás, quando se soube que o deputado do CDS já citado – e também membro da Maçonaria, essa escola de virtudes! – anda a contas com um processo judicial de reconhecimento da paternidade. O senhor terá um filho, agora já com quatro anos, mas insiste que o filho não é dele, apesar de os testes de paternidade assim o afirmarem. Ora considerando o valor de mercado – outro fetiche da direita! – da palavra e das convicções irrevogáveis de um deputado do CDS, certamente serão os testes laboratoriais que devem estar errados.

Resumindo e concluindo: para certos moralistas de pacotilha, as mulheres não devem interromper a gravidez mas sim assumirem-se como mães, mesmo contra a sua vontade. Os homens, esses, podem sempre sacudir a água do capote, decidindo livremente se lhes dá jeito assumir as consequências biológicas dos seus relacionamentos sexuais, ou não.

Há ainda a versão do “está caladinho!”, que é aquela que nos diz que não temos de nos meter em assuntos da vida privada dos senhores deputados que não nos dizem respeito. O que dizem no Parlamento é uma coisa, os “problemas” que têm na sua vida privada e a forma como os resolvem são com eles e com os tribunais competentes. Isto explica porque é que praticamente só o Correio da Manhã pegou, há uns meses atrás, na história pouco edificante do deputado Magalhães, e porque é que continuamos a ter entre nós esta auto-censura moralista e politicamente correcta que nos leva a conviver tão bem com a mentalidade tacanha dos vícios privados e das públicas virtudes.

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