Um país “confortável para ter filhos”

Com uma média de 1,2 filhos por mulher, Portugal é um dos países com menor fecundidade do mundo. Se nada for feito, o declínio demográfico acentuado será uma realidade nas próximas décadas e seremos metade dos que somos hoje dentro de duas ou três gerações.

Mas os nossos governantes tendem a olhar com displicência para a questão demográfica, não se inibindo sequer de a usar, da pior forma possível, como arma política: por exemplo, justificando pela diminuição da natalidade o fecho de escolas e o despedimento de professores em vez de desenvolverem estratégias para estimular a natalidade e apoiar mais as crianças e as famílias que ainda insistem em trazer filhos ao mundo. De facto, enquanto elegermos políticos que acham normal a emigração massiva dos jovens adultos qualificados, talvez nem valha mesmo a pena ter uma política para a natalidade, a educação ou a juventude. Melhor mesmo seria mudar primeiro de políticos…

cegonha_bebeEm qualquer caso, podemos sempre olhar para outros fizeram com sucesso o que nos revelamos incapazes de fazer: em França, e depois de a natalidade ter entrado em declínio no final do século passado, um conjunto de medidas trouxe de novo a fecundidade para os dois filhos por mulher em idade fértil, que é o limiar mínimo para assegurar a substituição de gerações e o valor mais elevado entre os países europeus. O Público traz hoje uma extensa reportagem sobre o tema, comparando a situação francesa com a realidade portuguesa e evidenciando o que se poderia fazer para enfrentar o problema. Em breves tópicos, as principais diferenças, ou como, também por cá, quase tudo poderia ser diferente:

  1. Em França muitas mães com filhos até três anos optam por trabalhar a tempo parcial e o Estado paga-lhes um complemento para que a perda de rendimentos não seja muito significativa. Os patrões são legalmente obrigados a aceitar esta situação, que não pode ser causa de despedimento.
  2. O exemplo francês desmente a ideia feita de que se as mulheres deixassem de trabalhar teriam mais filhos. Pelo contrário, a flexibilidade de horários na maioria das empresas, permitindo conjugar a vida profissional e familiar, mostra ser um poderoso incentivo à maternidade.
  3. Generalização dos horários de trabalho de 35 horas semanais permite mais tempo para estar com a família e organizar melhor a vida familiar.
  4. Benefícios económicos e fiscais significativos para famílias numerosas.
  5. Vasta rede de amas, creches e centros de tempos livres com custos acessíveis e horários alargados.
  6. As questões étnicas e culturais não são determinantes: as mães de origem africana são as que têm mais filhos, mas têm em média menos filhos do que teriam nos seus países de origem. Já as imigrantes italianas ou portuguesas, por exemplo, têm mais filhos em França do que, em média, as suas compatriotas em Itália ou Portugal.
  7. O sentimento de segurança parece ser mais decisivo do que o optimismo em relação ao futuro na decisão de ter filhos: muitos franceses são pessimistas, mas não desistem de ter filhos porque sabem que em situações difíceis –  doença, desemprego – nunca deixarão de ser apoiados.
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One thought on “Um país “confortável para ter filhos”

  1. […] E o gráfico mostra que este é um padrão comum à Europa mediterrânica, abrangendo também a Grécia, a Espanha e a Itália, todas elas com valores muito próximos dos nossos. Já a França, embora culturalmente integrada no mundo mediterrânico, consegue contrariar em parte a este destino, graças a uma política bem sucedida de incentivos à natalidade de que em tempos se falou por aqui. […]

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