O modelo português de (sub)desenvolvimento

De formas diversas, o essencial vem-se repetindo ao longo de séculos da nossa História: somos um país pobre, produzimos pouco e preferimos consumir, sempre que podemos, produtos estrangeiros. Importamos, por isso, mais do que exportamos, pelo que o dinheiro vai saindo do país a maior velocidade do que entra. Ou seja, empobrecemos.

RicosPara equilibrar uma situação a longo prazo insustentável, tivemos de criar formas de ir buscar ao exterior a riqueza que cá de dentro nos fugia, e essa é a essência, do ponto de vista económico, de toda a aventura dos Descobrimentos, da expansão marítima e da colonização de terras americanas e africanas. Em tempos mais recentes, as remessas dos emigrantes, as receitas do turismo e os fundos estruturais europeus cumpriram também esse papel essencial de equilibrar a balança de transacções externas.

Contudo, internamente, somos melhores a produzir ricos do que a distribuir equitativamente a riqueza, não criando condições suficientes nem para que a riqueza dos ricos se torne produtiva nem para que a maioria dos pobres consigam escapar à pobreza sem terem de emigrar.

Nas últimas décadas, o desequilíbrio estrutural das contas nacionais tem-se vindo a agravar, fruto da conjugação de uma política de desinvestimento no sector produtivo iniciada com o cavaquismo com a desregulação neoliberal e globalizadora dos mercados de capitais. A facilidade acrescida em movimentar o dinheiro, fazendo-o circular dos locais onde é gerado para as paragens onde os seus donos o sentem mais seguro ou a render mais, incentivou os capitalistas portugueses a expatriar os seus lucros para paraísos fiscais, descapitalizando progressivamente os grandes grupos económicos e financeiros.

Não quer isto dizer que deixaram de investir nas suas empresas, mas a verdade é que preferem quase sempre fazê-lo com o dinheiro dos outros, e isso explica a dimensão das perdas em casos como o do BPN, BES ou PT: se estivessem em jogo as fortunas pessoais dos administradores, certamente que não enveredariam pela gestão imprudente e de alto risco que trouxe os resultados que sabemos. E descobertas mediáticas como o escândalo Swissleaks serão provavelmente apenas a ponta do imenso iceberg do capital acumulado em Portugal e depositado no estrangeiro.

O reverso da medalha da descapitalização da economia portuguesa é mais uma inevitabilidade que nos vai sendo imposta, a da venda a preço de saldo das grandes empresas portuguesas a investidores oportunistas que usam Portugal como porta de entrada na União Europeia. O que poderá ser um verdadeiro negócio da China para os Chineses, como os próprios reconhecem, mas não traz à economia nacional verdadeiro investimento produtivo, que é aquele que se traduz na introdução de novos negócios, novas tecnologias, mais emprego e mais exportações. Vender agora as empresas estratégicas do país vai apenas garantir que os lucros reverterão, sem esforço, também para os estrangeiros.

Anúncios

Comentar

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s